A disputa global por minerais críticos ultrapassou as pautas climáticas, tornando-se o principal motor de novos acordos comerciais em 2025 e 2026, impulsionada por interesses militares e de tecnologia.
A configuração das parcerias econômicas globais mudou drasticamente nos últimos dezoito meses. Segundo um levantamento recente do IISD (International Institute for Sustainable Development), por meio do monitor Trade & Climate Tracker, a corrida pelo acesso a insumos estratégicos assumiu o protagonismo nas relações internacionais, deixando a pauta da transição energética em segundo plano na agenda diplomática.
Das mais de 70 parcerias econômicas e tratados firmados desde o início de 2025, cerca de 63% concentraram-se explicitamente em minerais críticos. Embora o discurso oficial frequentemente mencione a descarbonização, a realidade dos novos termos de cooperação revela um movimento estratégico voltado para a viabilização da inteligência artificial e, sobretudo, para a modernização das capacidades de defesa e segurança nacional.
Geopolítica das matérias-primas e a hegemonia dos EUA
A predominância desse tema reflete o esforço das economias industriais para fragmentar cadeias de suprimentos que, historicamente, dependem da China. Os Estados Unidos emergiram como os líderes desse movimento, consolidando mais de 20 instrumentos de cooperação apenas no último ano e meio. A estratégia norte-americana utiliza, inclusive, políticas tarifárias agressivas para garantir que o fluxo de materiais como lítio, cobalto e terras raras não sofra interrupções.
Enquanto a União Europeia também reforça seus laços com parceiros como Austrália, Índia e o próprio Mercosul para assegurar o abastecimento, o foco operacional revela prioridades distintas. O monitor aponta que, embora quase 70% dos acordos citem energia e clima, apenas uma fração limitada aborda a transição efetiva para fontes renováveis, evidenciando uma “maquiagem” verde em uma corrida industrial de base convencional.
“Com o Pentágono adotando uma postura de guerra priorizando a IA, o complexo militar-industrial dos EUA está integrando rapidamente empresas de tecnologia e IA com interesse mútuo em garantir o fornecimento de minerais essenciais”, destaca o relatório do Oakland Institute.
O papel do Brasil no tabuleiro global
Para o Brasil, o cenário é ambíguo. O país, embora parte dos tratados multilaterais através do Mercosul e do EFTA, não figura isoladamente entre os protagonistas desses novos pactos bilaterais de fornecimento. No entanto, mantém uma rede de diálogos ativos com potências como Alemanha, Arábia Saudita e Emirados Árabes, buscando atrair investimentos para o processamento local de recursos minerais.
O impacto futuro desse rearranjo é incerto. Se por um lado o mercado de commodities vive um ciclo de expansão sem precedentes devido aos trilhões de dólares direcionados à defesa e tecnologia de IA, por outro, a desvinculação dessas parcerias das metas climáticas pode frear os avanços necessários em energias limpas. A próxima fase desse jogo comercial dependerá da capacidade dos países produtores de agregar valor aos seus minerais, evitando que o Brasil — e outras nações ricas em recursos — retorne ao papel de mero exportador de matérias-primas básicas em um mercado global cada vez mais tenso e competitivo.






















