O recorde de 344 MW contratados na Resposta da Demanda em 2026 marca uma mudança no setor elétrico, onde grandes empresas transformam a flexibilidade de consumo em novas fontes de receita, otimizando o Sistema Interligado Nacional.
Durante décadas, a estratégia energética das corporações esteve concentrada em uma única variável: quanto custa o MWh consumido? Contudo, o avanço dos mecanismos de Resposta da Demanda começa a adicionar uma nova dimensão ao planejamento estratégico: em quais momentos é realmente necessário consumir?
Essa mudança de paradigma altera a lógica tradicional do setor elétrico. Empresas que possuem a capacidade de reduzir ou deslocar temporariamente sua carga elétrica agora podem ser remuneradas por oferecer essa flexibilidade ao sistema, transformando um comportamento operacional em uma nova oportunidade de receita.
Recorde histórico e expansão do mercado
O movimento ganhou escala significativa em 2026. No terceiro Mecanismo Competitivo de Resposta da Demanda por Disponibilidade, realizado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), foram contratados 344 MW de capacidade de redução de consumo. O volume é cerca de 50% superior ao registrado em 2025, estabelecendo um novo marco desde a criação da iniciativa.
Ao todo, 12 ofertas foram vencedoras, com um deságio médio de 49,23% em relação ao preço-teto. A região Sudeste/Centro-Oeste liderou a oferta, concentrando 61% da capacidade negociada, seguida pelo Nordeste e Sul. A indústria, especialmente o setor de metalurgia, foi a principal protagonista, respondendo por 86% do volume total.
A flexibilidade como ativo financeiro
Na prática, o mecanismo funciona como uma contratação de capacidade pelo lado do consumo. Em vez de o sistema responder a picos de carga apenas aumentando a geração, grandes consumidores comprometem-se a reduzir seu uso quando acionados pelo operador.
Segundo Gustavo Sozzi, CEO da Lux Energia, essa é uma transformação fundamental na visão das empresas sobre eficiência energética:
“Tradicionalmente, o consumidor procura negociar o menor preço possível pelo MWh. A Resposta da Demanda acrescenta uma nova dimensão: entender se parte daquele consumo pode ser deslocada ou interrompida sem comprometer a operação. Se existe essa flexibilidade, ela passa a ter valor para o sistema e pode ser monetizada”
Como as empresas podem participar?
O programa estrutural, estabelecido pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) em 2022, é voltado para consumidores livres e parcialmente livres. No entanto, o sucesso na participação depende de um mapeamento rigoroso das cargas internas.
Não se trata apenas de reduzir o uso, mas de saber o que pode ser flexibilizado sem afetar a segurança ou a qualidade. Gustavo Sozzi reforça a necessidade de planejamento:
“É necessário separar o que é consumo essencial do que é consumo flexível. Depois, entender a duração, frequência e impacto de uma eventual redução. Só então é possível saber se existe uma capacidade que pode ser oferecida ao sistema de forma segura”
O futuro do Sistema Interligado Nacional
O crescimento desse modelo ocorre em um momento de transição da matriz elétrica brasileira. Com a expansão das fontes solar e eólica, que possuem geração intermitente, o sistema precisa de mais recursos para equilibrar as oscilações diárias. A gestão da demanda surge, assim, como um recurso complementar às baterias e às usinas despacháveis, aumentando a resiliência e a segurança energética.
A tendência para os próximos anos é de fortalecimento desse mercado. À medida que novas tecnologias de automação e armazenamento se tornam comuns no meio industrial, o consumo de energia deixará de ser um custo passivo para se tornar um ativo gerenciável. A capacidade de “não consumir” em momentos críticos está se provando tão valiosa quanto a própria geração de energia, sinalizando um futuro onde a flexibilidade será o diferencial competitivo das grandes empresas.
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