O Brasil se posiciona no mapa global da energia limpa com um investimento bilionário da BRE para a produção e refino de terras raras na Bahia, impulsionando tecnologias sustentáveis.
Um marco significativo se desenha no setor de mineração e energia limpa do Brasil. A empresa Brazilian Rare Earths (BRE) revelou planos ambiciosos para o projeto Rocha da Rocha, na Bahia, estimando um aporte de US$ 969 milhões (equivalente a cerca de R$ 5,03 bilhões) para a produção e refino de terras raras.
Este investimento bilionário não apenas coloca o estado baiano no centro da inovação global, mas também reforça o papel do país na cadeia de valor de minerais estratégicos para a transição energética.
O estudo preliminar do projeto, recém-divulgado, detalha a visão da BRE para estabelecer uma operação integrada: extração do minério no interior do estado e o processamento químico em um polo industrial já consolidado.
A iniciativa visa suprir a crescente demanda por elementos essenciais para tecnologias verdes, como veículos elétricos, turbinas eólicas e eletrônicos de alta performance, projetando o início da construção para 2029 e a produção de materiais refinados até 2031.
Um Projeto Estratégico para a Bahia e o Mundo
O projeto Rocha da Rocha representa um passo audacioso para a independência brasileira na cadeia de terras raras, um mercado atualmente dominado por poucos atores.
A estratégia da BRE de refinar os minerais em território nacional agrega valor significativo, evitando a mera exportação de matéria-prima.
A escolha do Polo de Camaçari, na Bahia, para a etapa de processamento hidrometalúrgico, não é aleatória; ela capitaliza a infraestrutura industrial existente, incluindo energia, reagentes, mão de obra qualificada e acesso portuário, otimizando custos e logística.
Etapas da Produção: Da Mina ao Refino
O plano detalha uma abordagem faseada, começando pela mina de Monte Alto. Ali, o minério será extraído, britado e passará por uma separação física inicial para elevar sua concentração.
Em seguida, o material concentrado será transportado por aproximadamente 260 quilômetros até Camaçari. Na futura unidade hidrometalúrgica, ocorrerão as complexas etapas químicas de processamento e separação das terras raras, além da recuperação de urânio, elemento também previsto no desenho industrial da operação.
O Potencial dos Óxidos de Terras Raras
Ao final do processo, a BRE pretende entregar dois produtos comerciais de alto valor.
O primeiro é o óxido de NdPr (neodímio e praseodímio), crucial para a fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho, que são o coração de motores de veículos elétricos e geradores de turbinas eólicas.
O segundo é um concentrado de terras raras pesadas, denominado HRE+, rico em elementos como disprósio, térbio, ítrio, samário e gadolínio.
As projeções para os primeiros cinco anos de operação integrada são robustas, com uma média anual de 6.351 toneladas de óxido de NdPr e 2.502 toneladas do concentrado HRE+, incluindo volumes expressivos de disprósio e térbio.
Antecipando a Produção e Geração de Valor
Antes de erguer a estrutura completa de refino, a BRE planeja uma estratégia de antecipação: a venda de concentrado de terras raras da mina de Monte Alto.
Esta fase inicial, com um investimento estimado em US$ 91 milhões, visa gerar receita precoce e mitigar os riscos da expansão para a etapa industrial plena.
A empresa já obteve as autorizações necessárias para exportar concentrados minerais de alto teor, com potencial para iniciar as vendas em 2030. Essa tática demonstra uma abordagem pragmática para financiar o projeto e validar o mercado.
A Vantagem do Alto Teor em Monte Alto
A viabilidade da primeira fase se apoia nos ricos depósitos de Monte Alto.
As estimativas de recursos minerais indicam 3,4 milhões de toneladas com um teor médio de 11,26% de TREO (Total de Óxidos de Terras Raras).
Este elevado teor é um diferencial competitivo, pois permite obter uma quantidade maior de terras raras com um volume menor de minério, o que se traduz em instalações mais compactas, menor consumo de insumos e redução dos custos por unidade produzida, tornando o projeto ainda mais atrativo e sustentável.
Perspectivas Financeiras e Próximos Passos
As projeções financeiras para o projeto Rocha da Rocha são animadoras.
A BRE estima um Valor Presente Líquido (VPL) pós-impostos de US$ 7,9 bilhões, com uma Taxa Interna de Retorno (TIR) pós-impostos de 89%, e um Ebitda médio anual de US$ 1,4 bilhão ao longo da vida da operação.
Contudo, a empresa ressalta o caráter preliminar desses dados, com uma margem de precisão de mais ou menos 40%.
O cronograma prevê a conclusão do estudo de pré-viabilidade (PFS) em 2027 e o estudo definitivo de viabilidade em 2028, com uma decisão final de investimento esperada para 2029.
A BRE também reconhece o desafio de levantar os cerca de US$ 969 milhões necessários para o empreendimento. Entre as alternativas consideradas para a captação de recursos estão a atração de parceiros estratégicos, a formação de uma joint venture ou a venda parcial do projeto.
O investimento bilionário da BRE no projeto Rocha da Rocha na Bahia é um divisor de águas para a indústria de energia limpa e a economia brasileira.
Ao estabelecer uma cadeia de valor completa para terras raras, da extração ao refino, o Brasil se posiciona como um fornecedor-chave de materiais essenciais para a transição energética global.
Embora os desafios de financiamento e desenvolvimento ainda existam, o potencial de Monte Alto e a estratégia de agregação de valor em Camaçari sinalizam um futuro promissor para a mineração sustentável e a tecnologia verde no país, gerando impactos positivos duradouros para a região e para o cenário internacional de energias renováveis.























