Flávio Bolsonaro promete acabar com ‘entraves ambientais’, Lula defende fiscalização forte

Flávio Bolsonaro durante ato de campanha em Marabá (PA), em 19 de outubro de 2026, ao lado do governador eleito do Pará, Daniel Santos (Podemos, dir.) e do prefeito do município, Toni Cunha (PL, esq.). Crédito Foto: Vittor Sales//Divulgação campanha de Flávio
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O futuro da Amazônia em disputa: propostas antagônicas para o meio ambiente na corrida presidencial.

O cenário eleitoral para a Presidência da República revela visões radicalmente distintas sobre o destino da Amazônia e das políticas ambientais no Brasil. Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva busca consolidar e expandir as ações de proteção e fiscalização, o candidato Flávio Bolsonaro acena com um “revogaço regulatório”, prometendo flexibilizar as normas ambientais para impulsionar projetos de infraestrutura e mineração. As propostas divergentes prometem moldar de forma significativa o futuro do país e de seus biomas.

A dicotomia nas propostas é clara: de um lado, a continuidade de um modelo que prioriza o combate aos crimes ambientais e o fortalecimento dos órgãos de controle, responsável por uma expressiva redução do desmatamento. Do outro, a promessa de um licenciamento mais ágil, a revisão das atribuições de órgãos fiscalizadores e a liberação de atividades produtivas em territórios sensíveis. A escolha entre esses caminhos definirá o impacto das ações humanas sobre um dos ecossistemas mais importantes do planeta.

Uma Aversão à Agenda Ambiental?

As divergências nas propostas socioambientais dos candidatos à Presidência da República apontam para futuros radicalmente opostos para a Amazônia. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sinaliza a intenção de dar continuidade às agendas climática e ambiental, mantendo um equilíbrio entre projetos de infraestrutura, agronegócio e exploração de recursos naturais, sem, contudo, ceder no combate aos crimes ambientais. Em contrapartida, Flávio Bolsonaro (PL) demonstra um forte desejo de retornar à gestão de seu pai, Jair Bolsonaro, propondo a aceleração do licenciamento ambiental, a reformulação das competências dos órgãos de fiscalização e o incentivo a atividades produtivas em terras indígenas e quilombolas.

Para Márcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima, a distinção é patente:

Em geral, os planos são muito diferentes. Um é muito consistente para o meio ambiente. O outro fala muito pouco, mas o próprio candidato demonstra uma aversão pela agenda ambiental muito grande desde seus momentos anteriores ao da candidatura.

Essa percepção já antecipa um debate polarizado sobre o futuro da proteção ambiental no Brasil.

O “Revogaço Regulatório” de Flávio Bolsonaro

No seu plano de governo, Flávio Bolsonaro propõe um “amplo revogaço regulatório” e um “licenciamento ambiental ágil, moderno e com segurança jurídica”, visando acelerar “grandes obras, usinas, minas e projetos industriais”. Durante um ato em Marabá, no sudeste do Pará, o candidato prometeu aos produtores rurais a aceleração da regularização fundiária e o respeito à propriedade privada, afirmando:

Você vai poder plantar, criar gado, vai fazer o que quiser na sua terra e explorar da terra o que é seu.

A promessa de acabar com os “entraves ambientais” que ele atribui a “razões ideológicas” ressoa como um chamado à desregulamentação.

A proposta de “eliminar sobreposições” entre órgãos como o Ibama, Funai e ICMBio, sob o argumento de dar “eficiência à fiscalização”, preocupa especialistas. Márcio Astrini avalia que isso indica uma retomada da postura do governo Jair Bolsonaro, caracterizada pelo desmonte dos órgãos de controle.

O Flávio está prometendo acelerar esse desmonte e diminuir a capacidade do Estado de implementar a legislação. Na prática, é eliminar os órgãos de controle de meio ambiente e de fiscalização no Brasil e diminuir ao máximo a operação do campo.

alerta.

O histórico recente reforça essas preocupações. O afastamento do diretor do Ibama, Eduardo Bim, por suposto envolvimento em esquema de contrabando de madeira, e as investigações sobre o ex-ministro Ricardo Salles, que sugeriu “passar a boiada” na legislação ambiental, são exemplos de um período de fragilização das instituições. A condenação de Marcelo Xavier, ex-presidente da Funai, por denunciação caluniosa, também lança sombras sobre a gestão passada.

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Riscos e Oportunidades para a Amazônia

O plano de Flávio Bolsonaro inclui um licenciamento priorizado e acelerado para a exploração de minerais críticos e estratégicos, com áreas pré-aprovadas e abertura para parcerias internacionais. Essa proposta representa um risco significativo para a Amazônia, que concentra uma parcela expressiva dos processos ativos de mineração no país. A legislação atual, que Flávio deseja simplificar, já prevê modalidades de licenciamento com prazos definidos para análise. No entanto, sua proposta sugere a concessão automática da licença caso o processo ultrapasse o prazo, um ponto que Taciana Stec, especialista em políticas públicas do Instituto Talanoa, considera uma “brecha para configurar todo tipo de ilegalidade”, especialmente em um contexto de Congresso “totalmente antiambiental”.

A análise de Márcio Astrini é contundente:

O pior momento da área ambiental que o Brasil já passou, desde a redemocratização, foi nos quatro anos de governo Bolsonaro. O crime ambiental nunca cresceu tanto em expansão territorial e capacidade financeira de atuação.

As iniciativas apoiadas por Flávio Bolsonaro como senador, incluindo projetos pela flexibilização do licenciamento e propostas para acabar com a reserva legal, reforçam a preocupação com a aplicação de suas promessas.

Lula e o Caminho do Desmatamento Zero

Em contrapartida, o plano de Luiz Inácio Lula da Silva para um possível quarto mandato foca em manter a meta de alcançar o desmatamento zero até 2030. A atual gestão tem se destacado pela retomada dos planos de ação para prevenção e controle do desmatamento nos seis biomas brasileiros, resultando em uma redução significativa na Amazônia. O presidente promete manter as Forças Armadas nas fronteiras amazônicas e ampliar a parceria com países da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), combinando vigilância territorial e proteção de recursos naturais com a presença do Estado em obras de infraestrutura e serviços públicos.

O setor agropecuário, grande vilão do desmatamento, é abordado por Lula com prioridade na regularização fundiária de pequenos produtores, programas de incentivo à recuperação de áreas degradadas e linhas de crédito para agroecologia e produção orgânica. Para o agronegócio em geral, o plano inclui o fomento a sistemas produtivos integrados e a recuperação de pastagens, visando evitar a abertura de novas áreas.

Nesse ano de redução do desmatamento a níveis históricos, chegamos perto de superar os Estados Unidos como potência agrícola. Intensificar a produção e diminuir o desmatamento é uma realidade.

observa Taciana Stec.

Direitos dos Povos e Territórios Protegidos

A estratégia de Lula para zerar o desmatamento inclui a destinação de terras públicas para unidades de conservação, territórios indígenas e quilombolas, além do reforço na regularização fundiária e no reconhecimento de direitos territoriais. O governo retomou a demarcação de terras indígenas, paralisada desde 2019, e promoveu operações de desintrusão de invasores. A criação de ministérios como o dos Povos Indígenas e de Igualdade Racial é vista como um avanço importante.

Em contraste, o plano de Flávio Bolsonaro não prevê o reconhecimento de novas terras indígenas e quilombolas, e o candidato já se manifestou contra novas demarcações. A proposta de “destravar” a Ferrogrão e a hidrovia do rio Tapajós, projetos contestados por povos indígenas devido a potenciais impactos ambientais, demonstra uma priorização clara do agronegócio. A promessa de “autonomia para decidir sobre atividades produtivas em suas terras” para povos indígenas e quilombolas, mas com a defesa de atividades de alto potencial poluidor como mineração e garimpo, gera apreensão.

A eventual implementação das propostas de Flávio Bolsonaro, com o desmonte de órgãos ambientais e um licenciamento acelerado, pode criar “uma circunstância de terra sem lei”, com consequências “terríveis” para essas populações, incluindo o aumento da violência e a invasão de terras, como avalia Márcio Astrini. O futuro da Amazônia e a proteção de seus ecossistemas e povos dependem diretamente das escolhas que serão feitas nas urnas.

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