Um novo relatório do Instituto Mãe Crioula revela que a retirada de garimpeiros das Terras Indígenas Munduruku não encerra os conflitos, evidenciando a necessidade de políticas estruturais para combater a dependência econômica do garimpo ilegal na região.
A desintrusão de invasores em áreas protegidas na Amazônia é frequentemente celebrada como uma vitória ambiental. No entanto, um estudo inédito intitulado *O Circuito Espacial do Garimpo Ilegal no Pós-Desintrusão*, realizado pelo Instituto Mãe Crioula em parceria com a Universidade do Estado do Pará (Uepa), aponta que a realidade é mais complexa. A pesquisa detalha como a retirada dos garimpeiros, por si só, não desarticula as redes econômicas que sustentam a extração mineral predatória.
O relatório, coordenado pelo geógrafo e pesquisador Aiala Colares de Oliveira Couto, mergulha nas dinâmicas de Jacareacanga e Itaituba (PA) para mostrar que o garimpo ilegal de ouro atua como um agente de reordenamento territorial. Sem alternativas econômicas sólidas, a ausência do Estado permite que essas redes se reorganizem ou migrem, perpetuando vulnerabilidades sociais e mantendo territórios indígenas sob constante ameaça.
O ciclo da minero-dependência e a rede de suporte
A pesquisa destaca um fenômeno alarmante: a “minero-dependência”. Em municípios como Itaituba, o comércio, o sistema bancário e a logística local adaptaram-se para servir à exploração mineral. Essa integração cria uma aparência de legalidade que mascara a predação ambiental. Consequentemente, quando ocorre a fiscalização, a economia local sofre um impacto imediato, revelando a fragilidade de cidades que não diversificaram suas fontes de renda.
Segundo o estudo, a ilegalidade não é um fenômeno isolado, mas parte de um sistema complexo. Estabelecimentos formais, como postos de combustíveis e lojas de maquinário, são peças fundamentais nessa engrenagem. A falta de políticas públicas que incentivem a economia sustentável torna a desintrusão uma medida paliativa, caso não venha acompanhada de um projeto de desenvolvimento regional que valorize as alternativas propostas pelos próprios povos Munduruku.
“Esses impactos evidenciam como o garimpo atua como um importante agente de reorganização territorial, influenciando simultaneamente dimensões sociais, econômicas e ambientais da região”, afirma Aiala Couto.
Impactos ambientais e o protagonismo indígena
Além dos danos socioeconômicos, o relatório enfatiza a degradação persistente dos recursos hídricos. O assoreamento e a contaminação dos rios — essenciais para a sobrevivência das comunidades locais — não se resolvem instantaneamente com o fim do garimpo. A recuperação desses ecossistemas exige ações contínuas de monitoramento e a integração dos saberes tradicionais na gestão do território.
As lideranças indígenas propõem que a solução passe pelo fortalecimento da educação intercultural, segurança alimentar e proteção territorial autônoma. O estudo conclui que a proteção efetiva das Terras Indígenas depende, primordialmente, de uma presença estatal constante e articulada. A transição para um modelo de desenvolvimento sustentável na Amazônia exige, portanto, que o Estado escute e inclua o protagonismo indígena na formulação de estratégias que, de fato, desestructurem a cadeia do garimpo ilegal de forma definitiva.























