A falta de infraestrutura para escoar o gás natural brasileiro gera um prejuízo anual de US$ 4 bilhões, impedindo que a alta produção se converta em energia mais barata para a indústria.
O Brasil enfrenta um paradoxo significativo no setor de energia: a produção nacional de gás natural é três vezes superior ao volume que efetivamente atinge o mercado consumidor. De acordo com uma nota técnica recente, elaborada pelo Movimento Brasil Competitivo (MBC) em parceria com a Pezco Economics, o país desperdiça um potencial econômico gigantesco devido a gargalos logísticos crônicos. Em 2025, enquanto a extração diária alcançou 179 milhões de metros cúbicos, apenas 62 milhões foram entregues aos clientes finais.
Este abismo entre a oferta potencial e a entrega real é o principal entrave para a redução do preço do insumo. Enquanto a indústria nacional paga cerca de US$ 11,32 por milhão de BTUs, o estudo aponta que, com uma infraestrutura de escoamento e processamento eficiente, esse custo poderia ser reduzido para aproximadamente US$ 7. A disparidade não apenas encarece a produção industrial brasileira, como também limita a competitividade do país no mercado global.
Gargalos e o impacto da reinjeção
O problema central reside na falta de terminais e unidades de processamento adequadas. Sem caminhos para levar o insumo ao continente, as empresas acabam recorrendo à reinjeção do gás nos poços — uma prática que, embora ajude na manutenção da pressão dos reservatórios, representa um subaproveitamento comercial severo. Dados revelam que, em 2024, a reinjeção atingiu quase 60% da produção marítima, um índice que ilustra a urgência de investimentos em logística e infraestrutura estratégica.
“Os gargalos da cadeia reduzem justamente o potencial de o país transformar aumento da produção em energia mais competitiva”, afirmou Rogério Caiubu, conselheiro executivo do MBC.
Desafios regulatórios e o futuro da matriz energética
Para além da questão física, o setor ainda precisa superar barreiras institucionais. A integração do mercado exige uma harmonização regulatória mais eficaz entre o governo federal e as esferas estaduais. Além disso, o setor produtivo clama por um ambiente de maior segurança jurídica e pela implementação de regras claras que garantam o acesso de terceiros a terminais e unidades de processamento, evitando monopólios que travam o desenvolvimento da cadeia do gás natural.
A transição para um modelo de mercado mais dinâmico e eficiente é o próximo passo para o Brasil. A redução da insegurança jurídica e a modernização das normas de transporte são cruciais para que o país possa, finalmente, converter sua autossuficiência energética em um motor de desenvolvimento econômico. Caso esses obstáculos sejam superados, o impacto na conta de luz e nos custos de produção industrial pode ser transformador para o cenário energético nacional.























