Um estudo alarmante projeta que o Super El Niño pode elevar a conta de luz residencial em até 4,5 pontos percentuais em 2027, impactando diretamente o orçamento familiar e o setor de energia.
A comunidade de energia limpa e sustentável volta seus olhos para as projeções climáticas, que indicam um cenário desafiador para o setor elétrico brasileiro em 2027. A iminente ocorrência de um Super El Niño ameaça impor aumentos significativos nas tarifas residenciais de energia, conforme revelado por um estudo conjunto da Ampere Consultoria e da TR Soluções.
A pesquisa aponta que o fenômeno climático poderá adicionar, em média, 2,1 pontos percentuais aos reajustes ou revisões tarifárias regulares das distribuidoras de energia. No entanto, ao considerar o impacto das bandeiras tarifárias, que refletem as condições de geração de energia e são adicionadas mensalmente à conta de luz, a diferença média entre um cenário com e sem o Super El Niño pode saltar para 4,5 pontos percentuais.
Efeitos do El Niño na Geração de Energia
O principal fator por trás desse potencial aumento nos custos de energia reside na expectativa de que o Super El Niño reduza as precipitações na região centro-norte do Brasil durante o próximo período úmido. Com a diminuição do volume de água nos reservatórios das hidrelétricas, que são a espinha dorsal da matriz energética brasileira, o país seria forçado a acionar com maior frequência as usinas termelétricas. Estas últimas, por sua vez, operam com custos de geração de energia significativamente mais elevados, transferindo o ônus para o consumidor.
Além da necessidade de ativar termoelétricas, este cenário adverso também exerce pressão sobre outros componentes cruciais que compõem o cálculo das tarifas de energia. Fatores como o preço da energia no mercado de curto prazo, o risco hidrológico associado à dependência da água, os encargos setoriais e os termos dos contratos mantidos pelas distribuidoras de energia são diretamente impactados, contribuindo para a escalada dos reajustes tarifários.
Análise de Cenários e Reservatórios do SIN
Para quantificar o impacto, o estudo detalhou dois cenários distintos. O primeiro incorpora os efeitos esperados do Super El Niño entre 2026 e 2027. O segundo, um cenário base, desconsidera o fenômeno e se apoia nas previsões do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), combinadas com a média histórica de chuvas de 2013 a 2023.
As projeções indicam que, sob a influência do Super El Niño, os reservatórios das hidrelétricas que integram o Sistema Interligado Nacional (SIN) deverão finalizar o período úmido de abril de 2027 com aproximadamente 70% de sua capacidade. Sem a presença do fenômeno, esse nível subiria para cerca de 80%. Essa margem de dez pontos percentuais é crucial, pois uma menor capacidade hídrica no início do período seco implica uma maior dependência de fontes de geração de energia mais caras, como as termoelétricas.
Impactos Variáveis por Região e Distribuidora
A análise regional do estudo revela que a região Sul será a mais afetada, com uma diferença média de 3,3 pontos percentuais nos reajustes tarifários entre os dois cenários. Em contraste, a região Norte registrará o menor impacto, com uma estimativa de 0,9 ponto percentual. A razão para a maior vulnerabilidade do Sul não está necessariamente no preço da energia, mas sim na estrutura dos contratos de suas distribuidoras locais, que apresentam maior exposição aos custos de energia gerados pela menor pluviosidade e pelo acionamento de termoelétricas.
É fundamental compreender que o impacto não será uniforme para todos os consumidores. A forma como cada distribuidora de energia adquiriu sua energia e os termos de seus contratos podem levar a variações significativas nos reajustes tarifários, mesmo dentro de uma mesma região.
Bandeiras Tarifárias em Alerta Vermelho
Um dos fatores que mais amplificam o aumento na conta de luz são as bandeiras tarifárias, sistema que sinaliza as condições de geração de energia mensalmente. Enquanto a bandeira verde não acarreta custos adicionais, as bandeiras amarela e vermelha elevam o valor final da conta.
No cenário com Super El Niño, o estudo da Ampere Consultoria e TR Soluções prevê a provável ativação de bandeiras vermelhas, nos patamares 1 ou 2, entre julho e outubro de 2027. O primeiro semestre, por sua vez, deve apresentar predominância da bandeira verde, com possível transição para a amarela durante parte do período seco. A cobrança adicional das bandeiras é essencial para cobrir os custos de geração mais altos, como os provenientes do acionamento de termoelétricas e da reduzida produção das hidrelétricas, justificando o salto de 2,1 para 4,5 pontos percentuais no impacto médio.
Incertezas e Necessidade de Adaptação no Setor Elétrico
As projeções de longo prazo para fenômenos climáticos, como o Super El Niño, inerentemente carregam um grau de incerteza, como ressalta Guilherme Ramalho de Oliveira, sócio-consultor da Ampere Consultoria. A intensidade e os desdobramentos do El Niño ainda podem ser influenciados por outros fenômenos meteorológicos nos próximos meses, tornando essencial o monitoramento contínuo.
Helder Sousa, diretor de Regulação da TR Soluções, reforça que a variação do impacto entre as distribuidoras de energia será determinada pela especificidade de seus contratos de compra e pela exposição a variáveis como o preço da energia no mercado de curto prazo, o risco hidrológico e os custos de usinas contratadas por disponibilidade. Diante desse cenário, a busca por sustentabilidade e por uma matriz energética mais resiliente torna-se cada vez mais crucial para o futuro do setor elétrico brasileiro e para a estabilidade da conta de luz dos consumidores.




















