Governo estabelece zonas-chave para recarga hídrica no Cerrado, visando segurança hídrica e preservação.
O Brasil avança na gestão de seus recursos hídricos com a recente definição das Áreas Prioritárias de Recarga Hídrica no Bioma Cerrado, as APRHICs. Essa iniciativa do governo federal estabelece um marco no planejamento ambiental e na garantia do abastecimento de água em um dos ecossistemas mais vitais do país. O objetivo é direcionar esforços de conservação, restauração e manejo para regiões estratégicas, assegurando a sustentabilidade hídrica em longo prazo.
O Cerrado, conhecido por sua importância na formação de grandes bacias hidrográficas brasileiras, possui características únicas, como solos profundos, que facilitam a infiltração e o armazenamento de água. Essas propriedades o tornam fundamental para a alimentação de aquíferos e a manutenção do fluxo de rios, especialmente em períodos de estiagem. A iniciativa reconhece a interconexão entre a saúde do bioma e a disponibilidade de água para diversas regiões do país.
O desenvolvimento do mapeamento das APRHICs envolveu uma colaboração extensa, que durou mais de dois anos, entre o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), instituições de pesquisa como o Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), o Instituto Cerrados e a iniciativa Tamo de Olho. Essa abordagem multidisciplinar garantiu que o plano considerasse a complexidade hidrológica e as necessidades específicas do Cerrado.
A importância de proteger as áreas de recarga hídrica vai além da conservação das margens de rios e nascentes. Conforme destaca Isabel Figueiredo, coordenadora do Programa Cerrado no Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), as APRHICs oferecem uma visão territorial integrada, essencial para gestores públicos e para o controle social.
“Essa é uma ferramenta muito útil para gestores públicos no controle de atividades nocivas ao meio ambiente e para a sociedade civil promover ações e realizar controle social.”
Yuri Salmona, diretor executivo do Instituto Cerrados, ressalta a analogia com o corpo humano para explicar a relevância dessas áreas:
“As APRHICs indicam a importância de se proteger e restaurar Cerrado para alem das margens de rios que a legislação já indica, que é como se fossem as artérias, mas não protege o coração, que é o responsável por pulsar água pelo sistema.”
Essa perspectiva reforça a necessidade de uma proteção mais abrangente para garantir a “pulsação” hídrica do país.
A consciência de que o desmatamento atual impacta a disponibilidade hídrica futura é um dos pilares da iniciativa. A perda de vegetação nativa no Cerrado já resultou em uma redução significativa na vazão de segurança dos rios. A intensificação de eventos climáticos extremos sublinha a urgência de políticas de conservação proativas. A proteção e restauração das áreas de recarga são vistas como uma “poupança de água para o futuro”.
A definição das APRHICs servirá como guia para investimentos públicos e programas de restauração, fiscalização e criação de unidades de conservação. A meta é direcionar recursos de forma mais eficaz para as áreas mais sensíveis, garantindo que a conservação ambiental se traduza diretamente em benefícios para a disponibilidade hídrica, essencial para o abastecimento humano, a produção agropecuária e a geração de energia elétrica. A efetividade dessas medidas dependerá da integração dessas áreas nos planos e ações dos órgãos competentes.
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