Um novo estudo do Instituto MBCBrasil indica que o avanço do biometano na frota pesada brasileira depende de políticas públicas coordenadas, como precificação de carbono e paridade com o diesel.
A transição energética no setor de transportes brasileiro enfrenta um desafio estrutural que vai além da simples produção de biocombustíveis. Para que o biometano ganhe escala e substitua o diesel em caminhões e ônibus, o mercado nacional precisa de um arcabouço regulatório robusto, inspirado em modelos internacionais que já transformaram o gás renovável em uma peça-chave da matriz energética global.
Um estudo inédito, elaborado pelo Instituto MBCBrasil com o suporte acadêmico da USP, Universidade Federal de Itajubá, Instituto Agronômico de Campinas e Instituto Mauá, aponta que o sucesso do setor não ocorre de forma isolada.
A análise destaca que países que consolidaram o combustível em seus sistemas logísticos implementaram um conjunto de medidas, abrangendo desde a precificação de emissões até o investimento estratégico em infraestrutura de abastecimento.
Lições internacionais e o potencial brasileiro
O mapeamento revela que o Brasil detém uma vantagem competitiva natural, mas precisa evoluir na sofisticação do seu modelo. Enquanto na Europa o plano REPowerEU projeta uma produção massiva de 35 bilhões de metros cúbicos anuais até 2030, os Estados Unidos e a Índia avançam com centenas de projetos de Gás Natural Renovável (RNG) e milhões de veículos adaptados.
Levantamos evidências de dezenas de fontes internacionais e nacionais com o objetivo de demonstrar como o biometano pode impulsionar a transição energética no transporte terrestre em escala global. O retrato é consistente: o combustível é uma solução madura, viável e com benefícios sistêmicos para diversos países.
A professora Gláucia Souza, da USP e líder da IEA Bioenergy Task 39, reforça que o Brasil tem a chance de ir além do fornecimento de insumos.
A oportunidade está na exportação de tecnologias, soluções de engenharia e equipamentos integrados, consolidando o país como um hub global de inovação em descarbonização.
O papel da precificação e o desafio do diesel
A disparidade de custos frente ao diesel, agravada pela volatilidade geopolítica e pela dependência do petróleo, torna o biometano uma alternativa vital para a segurança energética nacional. O governo brasileiro tem desembolsado bilhões em subvenções para conter a alta dos combustíveis fósseis, um cenário que reforça a urgência de uma política que valorize as fontes de baixo carbono.
O estudo aponta o RenovaBio como um alicerce promissor, especialmente se somado a mecanismos como o LCFS (Padrão de Combustíveis de Baixo Carbono) da Califórnia.
Ao remunerar o biometano pela intensidade de carbono e pela mitigação de emissões de metano — especialmente aquele derivado de resíduos agropecuários e aterros —, o setor ganha o incentivo financeiro necessário para equilibrar a competitividade com o diesel tradicional.
A transição para um sistema de transporte movido a combustível renovável depende, agora, da transposição dessas evidências para políticas de Estado. Com a integração de resíduos, corredores de abastecimento e uma precificação de carbono eficiente, o Brasil não apenas reduzirá sua pegada ambiental, mas garantirá maior resiliência econômica diante dos choques de preços que frequentemente atingem a matriz fóssil global.















