O Brasil enfrentou um recorde de cortes na geração de energia eólica e solar em agosto, com perdas significativas no potencial produtivo de fontes limpas, apontam dados do ONS e BTG Pactual.
O mês de agosto trouxe um alerta para o setor de energia limpa no Brasil, com um aumento expressivo no índice de curtailment – a energia renovável gerada, mas não aproveitada pela rede. De acordo com um levantamento do BTG Pactual, baseado em dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), os cortes atingiram 26,1% do potencial de geração eólica e 32,5% da geração solar. Este cenário sublinha os desafios de infraestrutura e gestão para a plena integração das fontes sustentáveis na matriz energética nacional.
Para a energia eólica, o percentual de curtailment registrou seu maior nível desde outubro de 2025, marcando o segundo mês consecutivo de alta. Esse desperdício de potencial das fontes renováveis não apenas impacta a rentabilidade dos projetos, mas também acende um sinal amarelo sobre a capacidade do sistema elétrico de absorver a crescente oferta de geração limpa.
Cortes Crescentes na Geração Eólica
O curtailment na geração eólica avançou de 22,9% em julho para 26,1% em agosto, superando também os 20,9% do mesmo período de 2025. Embora a produção total tenha atingido 11.085 GWh, um volume superior ao de julho, permaneceu abaixo dos 11.274 GWh registrados em agosto do ano anterior, evidenciando o impacto dos cortes.
Estados como o Rio Grande do Sul e o Rio Grande do Norte foram os mais atingidos, com perdas de 50,2% e 40,8% do potencial eólico, respectivamente. Outras regiões relevantes para a produção de energia dos ventos, como Ceará, Bahia e Paraíba, também enfrentaram desafios.
Entre as companhias monitoradas, a CPFL se destacou com 50,8% de sua geração eólica potencial não utilizada, seguida por Alupar (48,4%), Copel (44,6%), Auren (28,3%) e Engie (23,4%). A média do setor acompanhada pelo banco alcançou 29,7%.
A persistência de altos índices de curtailment eólico e solar evidencia a urgência em fortalecer nossa infraestrutura de transmissão e otimizar a gestão da rede. A energia está sendo gerada, mas não chega ao consumidor, o que é um paradoxo para o avanço da descarbonização.
Desafios para a Geração Solar
A geração solar também sentiu o impacto, com cortes que chegaram a 32,5% do potencial em agosto, uma elevação em comparação aos 29,5% de julho. Embora ligeiramente inferior ao pico de 36,2% de agosto de 2025, o patamar ainda é elevado. A geração solar efetiva totalizou 3.266 GWh, um aumento em relação a julho, mas uma redução significativa frente aos 4.796 GWh do mesmo mês no ano anterior.
A Bahia liderou os cortes no segmento solar, com 42,2% de sua geração potencial, seguida de perto por São Paulo (39,8%) e Rio Grande do Norte (38%). Minas Gerais, Piauí e Goiás também registraram índices consideráveis.
No panorama corporativo, a Echoenergia, parte do grupo Equatorial, teve o maior índice de corte, com 49,6%, enquanto Alupar, Engie, Auren e Eneva também enfrentaram perdas notáveis.
As Razões por Trás dos Cortes
A análise das causas revela uma dinâmica complexa por trás do curtailment. Embora as razões energéticas (excesso de oferta) ainda sejam predominantes, sua participação no total de cortes diminuiu em agosto. Para a energia eólica, as causas energéticas caíram de 71,3% em julho para 57,3% em agosto, enquanto os cortes por confiabilidade e elétricos aumentaram, indicando problemas na estabilidade da rede ou capacidade de escoamento.
No caso da geração solar, os cortes por motivos energéticos reduziram de 96,1% para 88,6%, mas os cortes elétricos e por confiabilidade ganharam espaço, sugerindo que a infraestrutura e a operação do sistema interligado estão sob crescente pressão para lidar com a variabilidade e o volume das fontes de energia renovável.
O aumento do curtailment em agosto é um lembrete crítico dos desafios inerentes à expansão da matriz energética renovável do Brasil. Para assegurar que o país continue sua trajetória de liderança em energia sustentável, investimentos robustos em infraestrutura de transmissão e um planejamento energético mais eficaz por parte do ONS são fundamentais.
A otimização da rede, aliada a soluções tecnológicas, será crucial para garantir que cada GWh gerado por fontes limpas seja plenamente aproveitado, consolidando a segurança energética e a descarbonização da economia brasileira.














