Candidatos à presidência recebem roteiros para a transição climática, focados em desmatamento zero, bioeconomia e financiamento sustentável, com divergência principal sobre a exploração de petróleo.
A corrida eleitoral para a presidência do Brasil ganha um novo e crucial capítulo com a entrega de quatro roteiros detalhados para a transição climática, elaborados por influentes entidades do setor produtivo e da sociedade civil.
A mensagem aos presidenciáveis é unânime: o próximo ciclo de governo, entre 2027 e 2031, demandará resultados concretos e não apenas metas ambiciosas para a política ambiental.
Essas propostas, embora oriundas de perspectivas diversas, convergem em pontos essenciais como a conservação florestal, o fomento à bioeconomia e a urgência de mecanismos de financiamento climático.
No entanto, uma divisão significativa surge em relação ao futuro da exploração de petróleo no país, mostrando a complexidade dos desafios que se avizinham na agenda de desenvolvimento sustentável.
Quatro Vozes, Uma Agenda Verde
As propostas foram desenvolvidas por organizações de peso: o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), representando grandes corporações; a Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, que congrega diversos atores ligados ao agronegócio e ao meio ambiente; o Instituto Talanoa, um think tank dedicado a políticas climáticas; e o Observatório do Clima (OC), uma vasta rede de ONGs.
A análise desses documentos revela um consenso em sete eixos prioritários para a transição energética e climática.
Estes eixos incluem o desmatamento zero e a efetiva aplicação do Código Florestal, a transição para uma agropecuária de baixo carbono, a rastreabilidade socioambiental das cadeias produtivas, e a implementação de financiamento climático, como o mercado de carbono e a taxonomia sustentável.
Além disso, as entidades apontam para a bioeconomia e a economia da restauração como motores de desenvolvimento, uma transição energética justa, e a adaptação climática com foco na prevenção de desastres e segurança hídrica.
A Transição Justa e o Combate às Desigualdades
Um ponto crucial destacado nas propostas é que a transição climática vai além de meras mudanças tecnológicas ou de mercado. Ela deve ser social, econômica e política, visando corrigir desigualdades históricas, promover a inclusão social e combater o racismo ambiental.
Isso implica em criar empregos dignos e verdes, garantir direitos territoriais, erradicar a pobreza energética e fomentar a mobilidade inclusiva.
A percepção geral é que a crise climática impacta diretamente a vida da população, manifestando-se no aumento da conta de luz devido às secas, na inflação dos alimentos e na frequência de desastres naturais.
Floresta e Agronegócio: Pilares Inegociáveis
A proteção dos biomas e a regularização fundiária são tidas como pilares inegociáveis para a economia, a segurança no campo e a reputação internacional do Brasil.
O agronegócio é reconhecido como um setor-chave, tanto pela sua contribuição para as emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE), quanto pelas suas vastas oportunidades de mitigação e ganhos de competitividade econômica.
Há um forte consenso sobre a necessidade de acelerar a análise dos Cadastros Ambientais Rurais (CAR) e a execução dos Programas de Regularização Ambiental (PRA). A regularização dos imóveis rurais é vista como um passo decisivo para destravar investimentos na transição da atividade.
As propostas sugerem condicionar o acesso a linhas de financiamento, como o Plano Safra e o Plano ABC+, ao cumprimento do Código Florestal e à demonstração de métricas sustentáveis, oferecendo taxas de juros diferenciadas para produtores ambientalmente regulares.
Sistemas transparentes de rastreabilidade, do campo ao consumidor, são considerados um diferencial competitivo para acessar mercados globais exigentes.
“Em um cenário internacional cada vez mais rigoroso, marcado por exigências como o Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento (EUDR), a rastreabilidade deixou de ser apenas uma agenda regulatória e passou a ser um diferencial competitivo”, pontua a Coalizão Brasil.
O Instituto Talanoa ainda propõe incentivos financeiros para a adoção de práticas mais eficientes no campo, como créditos rurais com juros subsidiados para quem utiliza tecnologias de irrigação eficiente, plantio direto e integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF).
Para manter a floresta em pé, as propostas também defendem o desenvolvimento de cadeias da sociobiodiversidade, gerando empregos verdes e renda, com a restauração florestal em larga escala, ancorada no Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg), como uma nova fronteira econômica.
Petróleo: O Ponto de Discordância na Transição Energética
A questão do petróleo emerge como o principal ponto de divergência entre as propostas das entidades. Enquanto Observatório do Clima e Instituto Talanoa advogam por uma transição mais célere e abrupta dos combustíveis fósseis, CEBDS e Coalizão Brasil defendem uma transição energética gradual.
As propostas mais radicais incluem o fim de novos leilões de exploração de petróleo, a proibição do fracking, a eliminação de subsídios aos combustíveis fósseis e o abandono do carvão mineral nesta década. Elas também rejeitam tecnologias de captura e armazenamento de carbono (CCS).
Ambas as organizações defendem uma reorientação do modelo de negócios da Petrobras para a descarbonização, propondo limitar a exploração de petróleo aos poços existentes e impedir a abertura de novas frentes em regiões como a Margem Equatorial.
O Talanoa ainda sugere que o próximo presidente da República nomeie um líder para a Petrobras comprometido com a transição energética justa e com indicadores claros de evolução em quatro anos.
O principal argumento contra a expansão petrolífera é que ela não reduz a vulnerabilidade do Brasil a choques externos de preços de combustíveis e fertilizantes.
Por outro lado, CEBDS e Coalizão Brasil focam em uma transição gradual, com a expansão de biocombustíveis e hidrogênio verde, sem pedir o encerramento da exploração de novas fronteiras.
Financiamento: O Combustível da Transição
A necessidade de financiamento para uma economia de baixo carbono é um ponto pacífico entre todas as entidades. As propostas convergem para a regulamentação e operação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), o mercado regulado de carbono, e a implementação da Taxonomia Sustentável Brasileira.
“O Eco Invest e a consolidação das finanças sustentáveis completam essa arquitetura, oferecendo previsibilidade regulatória e atraindo capital para o Brasil”, afirma o CEBDS.
Contudo, as nuances sobre como financiar a transição revelam diferenças. CEBDS e Coalizão Brasil priorizam mecanismos de mercado, como blended finance e a atração de capital privado.
Já o OC e o Talanoa argumentam que o mercado privado não é suficiente para municípios mais vulneráveis, defendendo recursos não reembolsáveis para adaptação, prevenção de desastres e justiça climática.
O OC aponta que, apesar do orçamento de R$ 27,5 bilhões do Fundo Clima em 2026, a parcela não reembolsável é insuficiente para atender cerca de 1.500 municípios que combinam alta vulnerabilidade climática e baixa capacidade fiscal.
O CEBDS também propõe um indicador de financiamento da agenda climática, que reuniria gastos públicos, recursos dos mercados de carbono e investimentos sustentáveis.
Segurança Hídrica na Adaptação Climática
A adaptação climática, com foco na segurança hídrica, é uma preocupação unânime. A disponibilidade de água é intrínseca à produção de alimentos, geração de energia e infraestrutura.
O CEBDS sugere o reúso de água e um marco regulatório nacional para o uso de efluentes tratados na indústria e agricultura. A Coalizão Brasil Clima defende o pagamento por serviços ambientais (PSA) a produtores e comunidades que preservam vegetação em áreas cruciais para a recarga de aquíferos.
O Talanoa, além dos incentivos à irrigação eficiente, alerta para a vulnerabilidade da geração de energia elétrica às secas extremas, propondo a modernização da rede e mecanismos de resposta rápida para proteger a infraestrutura energética.
O think tank ainda propõe, para os primeiros 100 dias de governo, protocolos nacionais de prevenção e resposta a eventos extremos em conjunto com estados, municípios e Defesa Civil.
Por fim, o OC defende que, em períodos de seca, a prioridade seja dada ao consumo humano e à dessedentação animal, essencial para a produção agropecuária.
O Impacto Futuro
As propostas entregues aos presidenciáveis solidificam a agenda climática como um pilar central para o futuro do Brasil. A convergência em temas como desmatamento zero, agropecuária de baixo carbono e financiamento sustentável demonstra uma maturidade do debate.
A divergência em relação ao petróleo, no entanto, sublinha um dos maiores desafios estratégicos do país: como conciliar a exploração de recursos fósseis com a urgência de uma transição energética verde.
Os próximos anos serão decisivos para definir a trajetória do Brasil no cenário global da energia limpa e sustentável, e a forma como esses roteiros serão assimilados pelos futuros líderes definirá o legado ambiental da nação.
















