O Brasil busca se consolidar como líder na produção de hidrogênio verde, mas enfrenta desafios de competitividade para alcançar mercados internacionais.
O Brasil está empenhado em se tornar um protagonista global na produção de hidrogênio verde (H2V). Com a sanção da lei nº 14.948/2024, que instituiu o Rehidro, o país sinaliza seu compromisso com o desenvolvimento de tecnologias limpas, oferecendo um pacote robusto de incentivos fiscais, que incluem isenções, reduções e suspensões de tributos federais avaliadas em R$ 18,3 bilhões. O objetivo é impulsionar a fabricação e a comercialização de equipamentos e serviços voltados para o H2V, visando não apenas suprir a demanda interna, mas também posicionar o Brasil como um exportador estratégico.
A iniciativa visa alavancar a forte matriz de energia renovável do país para agregar valor a setores industriais que enfrentam dificuldades em sua descarbonização. No agronegócio, por exemplo, vislumbra-se a oportunidade de produzir fertilizantes verdes, aproveitando o excedente de energia solar que, em determinados momentos, precisa ser cortado devido à alta oferta – um fenômeno conhecido como “curtailment”. Contudo, um dos principais entraves identificados é a capacidade de competir em preço com os fertilizantes convencionais (“cinza”). A curto prazo, a perspectiva de paridade de custos é incerta, apesar de a segurança no fornecimento ser um fator de peso crescente, especialmente diante de gargalos logísticos globais.
O Desafio da Competitividade Global
Ainda que o custo seja um fator crucial, a viabilidade do hidrogênio verde no mercado internacional não se resume a ele. A segurança energética e a estabilidade geopolítica influenciam a demanda por insumos de baixo carbono. No Paraguai, um projeto de fertilizante verde no valor de mais de R$ 3 bilhões, que capitaliza a energia hidrelétrica de baixo custo, já garantiu um contrato de fornecimento de dez anos antes mesmo de sua construção. Essa estratégia demonstra a importância de assegurar mercados consumidores antecipadamente.
No cenário industrial, a pergunta que paira é se consumidores em mercados desenvolvidos, como a Europa, estarão dispostos a pagar um prêmio por produtos “verdes” brasileiros, como o aço. A empresa White Martins já dá passos concretos, com a inauguração de uma unidade de produção de H2V de 5 MW em Jacareí (SP), com capacidade para gerar 800 toneladas anuais. Contudo, o cenário internacional é dinâmico. A Europa, por exemplo, pode priorizar a segurança de abastecimento de gás natural em detrimento da adoção imediata de novas tecnologias de hidrogênio, dada a instabilidade global. A China, por sua vez, avança no H2V como forma de reduzir sua dependência de GNL, o que pode acelerar a inovação e baratear eletrolisadores, mas não garante necessariamente um mercado promissor para o Brasil.
Cautela e Estratégia para o Futuro
Diante desse quadro complexo, o Brasil precisa de uma estratégia cuidadosa. A ideia de que produtos com menor pegada de carbono seriam a salvação da indústria nacional pode precisar de ajustes. É fundamental que o país evite que recursos públicos sejam utilizados para subsidiar a descarbonização de outras economias, enquanto o mercado global ainda demonstra relutância em precificar adequadamente a sustentabilidade. A prioridade deve ser encontrar um modelo que garanta a competitividade do hidrogênio verde brasileiro, agregando valor à sua abundante geração de energia limpa e garantindo que os benefícios sejam revertidos para a própria economia nacional.























