A Aeris Energy foca na produção de pás eólicas, prevendo forte aumento mensal. O projeto de hidrogênio verde foi adiado para otimizar o capital e impulsionar a recuperação da demanda no setor eólico.
A Aeris Energy, um dos pilares na fabricação de componentes para o segmento de energia eólica, anuncia uma reorientação estratégica que prioriza a recuperação e expansão de sua produção de pás eólicas. A decisão coloca em compasso de espera seu ambicioso projeto de fabricação de cilindros para transporte de hidrogênio, concentrando os recursos da companhia na gestão do capital de giro e na otimização de suas operações centrais. Este movimento ocorre em um cenário de sinais positivos de retomada para o mercado de energia limpa no Brasil.
O ponto central da estratégia, conforme detalhado pelo CEO Alexandre Negrão, é a expectativa de um salto significativo na produção de pás, de cerca de 20 unidades mensais para aproximadamente 100 nos próximos trimestres. Esta escalada marca um “momento de inflexão” para a empresa, visando capitalizar a crescente demanda e fortalecer sua posição no mercado de energia renovável.
Reativação Produtiva e Perspectivas de Crescimento
A intensificação da produção de pás eólicas pela Aeris Energy envolve tanto a otimização das linhas operacionais quanto a reativação de quatro unidades que estavam desativadas. Este esforço demandará novas contratações, aquisição de matérias-primas e uma gestão rigorosa do caixa, dada a elevada necessidade de capital de giro.
O aumento na capacidade produtiva é respaldado por novos contratos, totalizando aproximadamente 2 GW, incluindo 1,4 GW com clientes como a Casa dos Ventos, com entregas previstas até 2027. Há ainda um adicional de 700 MW em projetos em negociação. A meta de 100 pás por mês no terceiro ou quarto trimestre de 2026 é vista como um passo crucial para a sustentabilidade da geração de caixa operacional. A diretora Financeira, Cristiane Sales, reforça que a disciplina financeira e de custos é essencial para diluir os custos fixos e melhorar a rentabilidade.
“Esse é nosso foco neste momento e, de fato, estamos em um ponto de inflexão, já que vamos ver uma crescente nos próximos trimestres.”
Desafios Financeiros e Reestruturação da Dívida
No primeiro trimestre de 2026, a Aeris registrou um prejuízo líquido de R$ 138 milhões, um agravamento em relação ao ano anterior. O Ebitda ajustado também ficou negativo em R$ 27,47 milhões, impactado pela baixa utilização da capacidade produtiva e a dificuldade na diluição de custos fixos. A receita operacional líquida teve uma queda de 49,8%, atingindo R$ 105,6 milhões, apesar do aumento nas exportações de pás. A demanda interna sofreu uma retração de 96,8%.
A dívida líquida da companhia alcançou R$ 1,864 bilhão no final de março, um aumento de 23,7% frente ao primeiro trimestre de 2025, impulsionado por juros e encargos financeiros. A Aeris está em negociações com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para reestruturar uma dívida com vencimento em agosto de 2026. Em maio de 2025, a empresa já havia concluído o reperfilamento de cerca de 90% de seu endividamento, alongando prazos e aliviando a pressão de curto prazo.
Cenário de Demanda e Expansão Estrutural
Apesar dos desafios, Alexandre Negrão apontou uma estabilização na queda da demanda no setor eólico, com 400 MW reportados no acumulado dos últimos 12 meses. A Aeris produziu 90 conjuntos de pás no período. A perspectiva para os próximos ciclos é otimista, com expectativa de volumes superiores a 500 pás, impulsionada por tendências de longo prazo como o consumo crescente de energia, a eletrificação de frotas e o avanço da digitalização.
A flexibilização monetária gradual e os investimentos em infraestrutura de transmissão, como os recentes leilões em março no Brasil, prometem favorecer a transição energética e a recuperação consistente da demanda. Estas ações são cruciais para melhorar o escoamento da energia renovável e mitigar os impactos do curtailment, um problema que afeta a injeção de energia na rede.
Olhar para o Mercado Global e Outras Frentes
As perspectivas para o mercado norte-americano também são analisadas pela Aeris. Alterações regulatórias nos Estados Unidos têm acelerado o desenvolvimento de projetos eólicos. Apesar da volatilidade política, o mercado, que inclui Canadá, demonstra resiliência, com uma projeção média de 9 GW em novas instalações anuais nos próximos cinco anos. O Canadá, em particular, deve ganhar relevância, com cerca de 2 GW em novas instalações previstas.
O projeto de hidrogênio está em “espera” devido a restrições de capital. O foco atual é a eficiência máxima das linhas de produção de pás. No segmento de serviços, embora haja espaço para ganho de market share, o cenário de curtailment no Brasil tem levado as geradoras a postergar manutenções, gerando dificuldades adicionais para o setor.
A Aeris Energy se encontra em um momento crucial de sua trajetória, consolidando-se no mercado de pás eólicas e ajustando suas velas para navegar na complexa, mas promissora, paisagem da energia sustentável. Com a reativação gradual de suas linhas de produção e uma reestruturação financeira em andamento, a empresa busca solidificar sua base para aproveitar a crescente demanda por energia renovável, tanto no Brasil quanto globalmente. A gestão eficiente de sua dívida e o foco estratégico na produção de pás são passos fundamentais para que a Aeris possa, no futuro, revisitar e expandir suas iniciativas em áreas como o hidrogênio verde.























