O governo federal oficializou a criação do GT-VER para transformar o vasto potencial de resíduos do Brasil em energia renovável, visando segurança jurídica e metas climáticas até 2031.
O Brasil deu um passo decisivo para converter seu passivo ambiental em um pilar estratégico de sua matriz energética.
O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) aprovou a criação do Grupo de Trabalho de Valorização Energética de Resíduos (GT-VER), uma iniciativa que pretende destravar gargalos regulatórios e econômicos que hoje impedem o aproveitamento pleno de resíduos urbanos, industriais e agropecuários.
Sob coordenação do Ministério de Minas e Energia (MME), o grupo chega com a missão de conectar a Política Nacional de Resíduos Sólidos aos objetivos da transição energética.
Em um país que descarta mais de 80 milhões de toneladas de lixo anualmente, a meta é clara: transformar esse volume em ativos energéticos, como biogás, biometano e combustíveis avançados, elevando a eficiência da sustentabilidade nacional.
Potencial transformador e rotas tecnológicas
A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) projeta que, até 2031, o país terá capacidade de produzir mais de 97 bilhões de Nm³ de biogás por ano.
Esse montante representa uma mudança de patamar, permitindo que resíduos orgânicos, antes fontes de emissão de metano, passem a alimentar a geração de eletricidade, calor e a produção de combustíveis de alto valor agregado, como o diesel verde e o combustível sustentável de aviação (SAF).
O GT-VER atuará de forma transversal, analisando desde a viabilidade técnica de hidrogênio de baixo carbono até combustíveis sintéticos.
O foco é desenhar regras que respeitem as particularidades de cada tecnologia, evitando imposições generalistas que possam desestimular novos investimentos no setor.
O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, afirmou:
Nosso objetivo é construir uma regulação moderna e com neutralidade tecnológica, que reconheça o valor de cada rota produtiva, do biometano aos combustíveis sintéticos e à geração térmica e elétrica, garantindo assim, previsibilidade para o investidor e sustentabilidade para a matriz brasileira.
Critérios para financiamento e integração setorial
Um dos pilares do trabalho será a definição de indicadores de desempenho ambiental e energético.
Esses critérios servirão de bússola para o mercado financeiro, facilitando o enquadramento de projetos em linhas de crédito e programas de incentivo à inovação.
A intenção é que, com regras claras, o investidor ganhe o horizonte temporal necessário para alocar capital em empreendimentos de longo prazo.
Além disso, a valorização energética respeitará rigorosamente a hierarquia legal: o uso do lixo como energia será priorizado apenas para frações que não puderem ser reutilizadas ou recicladas.
O grupo também buscará sinergias com o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), garantindo que a redução da pegada de metano seja contabilizada nas metas climáticas brasileiras perante o Acordo de Paris.
Próximos passos e governança
O colegiado contará com uma ampla coalizão ministerial, além da participação técnica de órgãos como a Aneel, ANP e ANA.
O processo de formulação das normas será aberto, prevendo consultas públicas, sessões técnicas e o diálogo com a sociedade civil, incluindo representantes de catadores de materiais recicláveis.
O impacto desse esforço será medido pela capacidade de integrar o Plano Nacional de Energia (PNE) e o Plano Nacional de Transição Energética (Plante) a uma realidade prática de gestão de resíduos.
Ao harmonizar a regulação, o Brasil não apenas reforça seu compromisso com a descarbonização, mas cria um mercado robusto que transforma o desafio do descarte em uma oportunidade de geração de renda e soberania energética.









