Uma inovadora tecnologia suíça propõe transformar trilhos ferroviários em fontes de eletricidade limpa através de paineis solares removíveis, visando aproveitar áreas inexploradas para a transição energética global.
A busca por soluções criativas para a expansão da matriz de energia renovável encontrou um novo aliado inusitado: o sistema ferroviário. Na Suíça, um projeto piloto está prestes a ser testado na região de Buttes, aguardando apenas o sinal verde do Departamento Federal de Transportes. A proposta é ocupar o espaço entre os trilhos com módulos fotovoltaicos, uma estratégia que visa otimizar terrenos já existentes para elevar a oferta de energia sustentável.
A iniciativa ganha força diante da crescente pressão europeia por metas ambientais mais agressivas. Enquanto outros países e empresas, como a alemã Deutsche Bahn, investigam como integrar a captação solar à infraestrutura de transporte, a startup suíça Sun-Ways destaca-se por ter patenteado um sistema modular e removível. O desenvolvimento tecnológico contou com a colaboração do instituto EPFL, de Lausanne, focando na praticidade para permitir a necessária manutenção periódica das vias férreas.
Logística inovadora e alto potencial de geração
Para viabilizar a implementação, a Sun-Ways uniu forças com a empresa de engenharia Scheuchzer. Juntas, elas estão desenvolvendo um trem especial capaz de realizar a instalação dos paineis de forma automatizada. O processo é comparado ao desenrolar de um tapete, onde os módulos fotovoltaicos são posicionados com o auxílio de pistões mecânicos integrados à composição ferroviária.
“Essa é a inovação”, afirma Baptiste Danichert, cofundador da startup, ressaltando o caráter disruptivo do sistema frente às necessidades operacionais dos trilhos.
Se aplicada em larga escala, a tecnologia poderia cobrir extensões significativas da rede suíça, totalizando uma área comparável a 760 campos de futebol. A expectativa é que, ao longo de toda a malha ferroviária nacional, o sistema seja capaz de gerar cerca de um terawatt-hora (TWh) por ano. Esse montante representa aproximadamente 2% do consumo total de eletricidade do país, com a energia produzida sendo destinada diretamente à rede pública.
Desafios técnicos e expansão internacional
Apesar do entusiasmo, o projeto enfrenta um escrutínio rigoroso da União Internacional de Ferrovias. As preocupações centram-se na integridade física dos paineis — que poderiam sofrer microfissuras — e no impacto ambiental ou operacional, como o risco de incêndios em vegetações próximas e o brilho excessivo que poderia prejudicar a visão dos maquinistas.
Em resposta, a startup defende que seus equipamentos possuem maior resistência técnica do que os modelos padrão, incorporando filtros antirreflexo e sensores de monitoramento constante. Para lidar com o acúmulo de neve e detritos, foram projetadas escovas de limpeza acopladas aos trens e mecanismos térmicos para derreter gelo. Com planos ambiciosos de expansão para a Alemanha, Áustria e Itália, a empresa acredita que sua solução pode ser aplicada em metade das ferrovias existentes ao redor do mundo, redefinindo o papel da infraestrutura de transportes na agenda global de sustentabilidade.






















