A EDP deu início aos testes de seu primeiro parque híbrido com armazenamento via baterias na América do Sul, enquanto freia novos aportes em geração renovável no Brasil.
A EDP inaugurou uma nova fase em sua operação sul-americana ao colocar em teste um sistema de armazenamento de energia em baterias acoplado a um parque eólico em Ovalle, no Chile. O projeto, que serve como um laboratório de tecnologias para a companhia, contrasta com a cautela adotada pela empresa em relação ao mercado brasileiro. Por aqui, a companhia mantém em banho-maria novos projetos de geração, pressionada por um cenário macroeconômico de juros altos e pelo crescente impacto do curtailment — o desperdício de energia gerada que não é escoada pela rede.
O empreendimento chileno, chamado Punta de Talca, recebeu um aporte de US$ 44 milhões. Com 240 MWh de capacidade, o sistema utiliza 51 contêineres projetados para suportar a alta atividade sísmica da região. A meta é que, até o final de 2026, a estrutura esteja em plena operação comercial, provendo flexibilidade ao sistema elétrico local e servindo de base para futuras expansões conforme a degradação natural dos componentes.
Aprendizado como diferencial competitivo
Para o CEO da EDP na América do Sul, João Brito Martins, a experiência chilena é fundamental para mitigar riscos operacionais. Ao dominar a curva de aprendizado na instalação e gestão desses ativos, a empresa busca ganhar tração e eficiência para disputar leilões futuros na região.
“Projetos como Punta de Talca mostram como o armazenamento pode contribuir para responder aos desafios da próxima etapa da transição energética, permitindo reforçar a flexibilidade do sistema de fornecimento de energia. Acreditamos que este tipo de solução terá um papel crescente na evolução dos sistemas elétricos da região e vemos um potencial importante para o desenvolvimento deste mercado no Brasil nos próximos anos”, pontuou Martins.
Modelo de receita e o cenário brasileiro
No Chile, a EDP se beneficia de um regulamento que permite o “empilhamento de receitas”, combinando a remuneração pela disponibilidade de capacidade com a arbitragem de preços — comprar energia quando o custo está baixo e vendê-la nos picos de demanda. Enquanto isso, o Brasil começa a trilhar caminhos similares com a nova regulamentação da Aneel e o leilão de baterias previsto para dezembro.
Contudo, a empresa adota uma postura conservadora frente ao certame brasileiro. A EDP demonstra preocupação específica sobre quem arcará com os custos da reserva de capacidade, temendo que o ônus recaia integralmente sobre os geradores, o que tornaria a conta pouco atrativa.
O impacto financeiro atual é um forte inibidor de novos investimentos locais. Somente no ano passado, a empresa viu R$ 190 milhões serem perdidos devido às restrições de despacho, montante que representa 5% de sua produção nacional. Enquanto os juros permanecerem em patamares elevados e os gargalos de transmissão não forem equacionados, o foco da companhia permanece no desenvolvimento de seu portfólio já existente, aguardando uma janela de mercado mais favorável para retomar a expansão no território brasileiro.























