A Enel Brasil alerta que a redução da oferta de energia da usina de Itaipu, devido ao aumento do consumo paraguaio, ameaça o equilíbrio tarifário das distribuidoras brasileiras.
A Enel, que opera concessões fundamentais em São Paulo e no Rio de Janeiro, oficializou um pedido de socorro à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
A companhia projeta um cenário de risco operacional para 2027: a possibilidade de que o Paraguai passe a absorver uma parcela significativamente maior da energia gerada pela binacional, reduzindo a cota disponível para o mercado brasileiro.
O cerne da questão reside na previsibilidade.
Segundo a empresa, a necessidade de energia que as distribuidoras devem contratar em leilões do governo federal é definida com base em estimativas que podem ser atropeladas pela demanda real da Ande (Administración Nacional de Electricidad), a estatal paraguaia.
Sem uma margem de ajuste, o setor elétrico brasileiro corre o risco de enfrentar um desabastecimento contratual que forçaria as empresas ao mercado de curto prazo, com custos que acabam por pressionar a conta de luz dos consumidores.
O Desafio do Cronograma e a Pressão por Flexibilidade
A preocupação da Enel se intensifica devido ao calendário rígido estabelecido pela Portaria Normativa nº 135/2026, do Ministério de Minas e Energia (MME).
Atualmente, as distribuidoras precisam declarar suas necessidades de compra antes mesmo de terem dados concretos sobre o quanto do excedente de Itaipu será efetivamente direcionado ao Paraguai.
Para mitigar esse risco, a companhia sugeriu uma flexibilização nos prazos de retificação para o leilão A-1.
Como alternativa, a empresa propõe a realização de um leilão de ajuste em janeiro de 2027, garantindo que as concessionárias possam recompor seus níveis de contratação sem serem expostas à volatilidade do mercado.
A adoção de medidas preventivas poderá reduzir a exposição das concessionárias ao mercado de curto prazo e evitar custos adicionais que, conforme as regras regulatórias aplicáveis, poderão ser reconhecidos e repassados às tarifas dos consumidores.
Crescimento Eletrointensivo no Paraguai
A mudança no perfil de consumo do país vizinho é um fator novo e de alto impacto.
Dados da Enel revelam que a demanda da Ande cresceu quase 18% nos primeiros meses de 2026, impulsionada majoritariamente por indústrias eletrointensivas.
O setor de mineração de criptoativos e a instalação de novos data centers de alto desempenho, como a parceria entre a Crusoe e a Araico, sinalizam que o excedente energético que historicamente chegava ao Brasil está cada vez mais escasso.
O impacto dessa fuga de carga é severo.
Em 2025, o volume consumido pelos paraguaios superou em mais de 60% as projeções iniciais utilizadas para o cálculo das cotas.
A fragilidade dos Mecanismos de Compensação de Sobras e Déficits (MCSDs) é outro ponto de atenção, pois, em um cenário onde todas as distribuidoras cotistas perdem energia simultaneamente, esses mecanismos perdem a eficácia para resolver o desequilíbrio.
O cenário coloca a Aneel em uma posição delicada, equilibrando a gestão da segurança energética nacional com as necessidades operacionais das distribuidoras.
A decisão final sobre a flexibilização das contratações será determinante para evitar que o aumento da demanda internacional por energia limpa em Itaipu se transforme em um encargo direto no orçamento das famílias brasileiras a partir de 2027.












