O Brasil, na qualidade de anfitrião da COP30, apresentou uma proposta inédita para estruturar a transição global para longe dos combustíveis fósseis, oferecendo um roteiro pragmático para nações em desenvolvimento e desenvolvidas.
Três anos após o compromisso histórico firmado na COP de Dubai, a comunidade internacional ainda enfrentava dificuldades para definir como operacionalizar o abandono gradativo do petróleo, gás e carvão.
Na última terça-feira (3), o Brasil deu um passo decisivo ao lançar o “Mutirão TAFF” (Transitioning Away from Fossil Fuels), um mapa do caminho que busca traduzir as metas climáticas em ações concretas e adaptadas a diferentes realidades econômicas.
O embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, enfatizou que o documento não cria novas obrigações, mas organiza o que já foi acordado no Acordo de Paris.
A iniciativa surgiu diante da resistência de grandes produtores de petróleo, que tentavam tratar o compromisso de Dubai como uma medida opcional, minando a urgência necessária para combater as mudanças climáticas de forma eficaz e estruturada.
Um caminho em três atos
O roteiro brasileiro propõe uma jornada dividida em três fases estratégicas. Entre 2027 e 2028, o foco será o diagnóstico: cada país identificará seu “arquétipo” econômico, o que permitirá aos bancos multilaterais e parceiros internacionais direcionar tecnologia e financiamento concessional para as vulnerabilidades específicas de cada nação.
A segunda etapa, programada para 2029 e 2030, concentra-se na infraestrutura. O objetivo é expandir redes elétricas e sistemas de armazenamento, garantindo que o suprimento limpo substitua os fósseis com confiabilidade.
Por fim, entre 2031 e 2033, a meta é a implementação comercial em escala de tecnologias como o hidrogênio verde e os combustíveis sustentáveis de aviação (SAF).
Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente, afirmou:
“Buscar rotas de transição energética é uma agenda econômica. Ela precisa ser justa para todos, inclusive para quem só tem petróleo”
Reforçando que o plano é, essencialmente, uma estratégia de diversificação produtiva.
O desafio dos subsídios globais
Um pilar central da proposta brasileira é a reestruturação dos incentivos fiscais. Atualmente, o mundo despeja cerca de US$ 725 bilhões anuais em subsídios diretos aos combustíveis fósseis — um valor dez vezes superior ao suporte destinado a fontes renováveis.
O plano sugere a eliminação progressiva desses subsídios, redirecionando os recursos para redes de proteção social.
A análise aponta que o sistema atual é ineficiente: a maior parte dos benefícios acaba capturada pelas fatias mais ricas da população.
Ao vincular a precificação de carbono — que hoje cobre menos de um terço das emissões globais — com uma transição justa, o Brasil espera reduzir a resistência política em países que dependem fortemente do carvão ou da exportação de óleo para manter o crescimento de seus PIBs.
Apesar de o tema não integrar a pauta oficial da próxima COP31, na Turquia, o movimento brasileiro sinaliza uma mudança de tom na diplomacia climática.
Conforme destacou Ana Toni, diretora-executiva da COP30, a descarbonização deixou de ser um tabu para se tornar o eixo central de uma nova fase de implementação, onde a soberania de cada nação é respeitada, mas a colaboração técnica torna-se o motor indispensável para frear o aquecimento global.












