O mercado livre de energia pode reaquecer em 2026, impulsionado pela queda nos preços e influência climática do El Niño, apesar da recente desaceleração observada.
Após um período de intensa expansão entre 2024 e 2025, o mercado livre de energia no Brasil registrou uma desaceleração significativa nas migrações de consumidores. Dados da Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia (Abraceel) apontam uma redução de 87,65% nas novas adesões de janeiro a maio de 2026, comparado ao mesmo período do ano anterior. No entanto, a empresa Ludfor demonstra otimismo, projetando uma recuperação desse fluxo ainda no segundo semestre de 2026, alavancada por uma esperada retração nos custos da energia.
Esse cenário de otimismo da Ludfor é pautado em uma análise aprofundada da dinâmica de oferta e demanda. A expectativa é que o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) reveja para baixo a estimativa de carga energética para o próximo semestre e para 2027, reflexo da diminuição de investimentos na indústria. Em contrapartida, a oferta tende a crescer, com a contribuição do fenômeno El Niño que promete favorecer a recuperação dos reservatórios hidrelétricos em algumas regiões e impulsionar a geração eólica e solar em outras.
O Impacto do El Niño e a Dinâmica de Preços
A atuação do El Niño é vista como um fator dual no panorama energético. Enquanto contribui para a elevação dos níveis dos reservatórios no Sul do país, ele também pode reduzir as chuvas no Norte e Nordeste, criando um ambiente propício para o avanço das fontes renováveis como a energia eólica e a solar. Essa combinação de fatores leva a Ludfor a prever uma queda no Preço de Liquidação das Diferenças (PLD), que poderá se aproximar dos R$ 100 por megawatt-hora.
Em entrevista à agência eixos, Ezequiel Fernandes, diretor executivo da Ludfor, explicou o raciocínio por trás dessa projeção:
“Se por um lado da demanda a gente tende a ter uma revisão quadrimestral puxando essa carga para baixo, pelo lado da oferta, com esse quadro de recuperação dos índices de hidrologia e ainda no período de seca, a gente acredita que isso vai fazer com que haja uma redução compulsória das ofertas de preço de energia a partir dos próximos anos.”
Essa redução do PLD é crucial, pois é o gatilho esperado para que mais consumidores que aguardavam condições mais favoráveis se sintam seguros para migrar do mercado cativo.
Contrapontos e Desafios para a Migração
Nem todos, porém, compartilham do mesmo otimismo. Fred Menezes, diretor de comercialização da Armor Energia, argumenta que o El Niño, paradoxalmente, tem sido um entrave para a queda do PLD. Ele aponta a preocupação com a concentração de chuvas em regiões com pouca capacidade de armazenamento hídrico, enquanto áreas com grandes reservatórios podem enfrentar períodos de seca mais prolongados.
Além disso, o aumento das temperaturas provocado pelo fenômeno pode elevar a demanda por energia. A incerteza gerada pelos extremos climáticos tende a manter a aversão ao risco no mercado elevada, impactando diretamente o PLD.
Outro ponto que contribuiu para a recente desaceleração das migrações foi o encerramento dos descontos nas tarifas de transmissão e distribuição (TUSD/TUST) em novembro de 2025, conforme a Lei 15.269/2025. Para muitos consumidores, essa oportunidade representava uma economia de 8% a 10%, e seu fim alterou a atratividade do mercado livre. Ciro Galvão, sócio fundador da Valuata, ressalta que a mudança no cálculo da contribuição mínima da CCEE e o rateio dos encargos de usinas nucleares também pesaram no balanço financeiro.
Cenário Futuro para o Setor
A desaceleração das migrações tem repercussões significativas para as comercializadoras de energia, que já lidam com casos de recuperações judiciais e restrições de liquidez. Especialistas preveem uma aceleração nos processos de fusões e aquisições (M&A), resultando em uma maior consolidação do setor com a emergência de players mais robustos.
Nesse contexto, a diferenciação será chave. As empresas precisarão inovar em seus portfólios de produtos, buscando criar valor que vá além da mera venda de commodities energéticas. Já é visível uma mudança estratégica: na Ludfor, a maioria dos novos negócios agora foca em troca de representação, e não em novas migrações. A Armor Energia, por sua vez, reorientou seu foco de liquidez entre agentes para o atendimento direto ao cliente, posicionando-se como uma gestora de energia. A expectativa é que, com a estabilização dos preços e a adaptação do mercado às novas regras, a jornada rumo à energia limpa e sustentável no mercado livre ganhe novo fôlego.





















