A EPE alerta para a duplicidade em pedidos de conexão de data centers, sobrecarregando o planejamento elétrico. Há um “trabalho dobrado” devido a diferenças regulatórias entre redes de distribuição e transmissão.
A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) levantou uma preocupação crucial sobre a eficiência no planejamento do setor elétrico brasileiro, destacando a possibilidade de “trabalho dobrado” nos estudos de acomodação de cargas, especialmente aquelas provenientes de data centers.
A questão central reside na aparente estratégia de empreendedores que buscam vantagens regulatórias ao solicitar conexão às redes de distribuição, em detrimento da rede de transmissão, onde há exigência de garantias.
Esse cenário, identificado pelo presidente da EPE, Thiago Prado, aponta para um “movimento de arbitragem” no processo de solicitação de acesso à rede.
Enquanto a conexão na rede de transmissão segue a Política Nacional de Acesso ao Sistema de Transmissão (PNAST), que impõe o aporte de garantias financeiras, a rede de distribuição não apresenta a mesma exigência.
Essa diferença, segundo Prado, pode estar incentivando os empreendedores a optar pela via mais “confortável” da distribuição, mesmo para grandes volumes de carga.
Arbitragem Regulatória e o Impacto no Planejamento
A distinção nas regras de conexão tem gerado um volume expressivo de pedidos na rede de distribuição, que em alguns estados já se equipara ou supera os solicitados para a rede de transmissão.
Prado afirmou durante o evento TechGrid 2026, promovido pela Axia:
Acaba que os empreendedores podem optar. Se ele não precisa aportar garantia para pedir um acesso à distribuidora, então isso gera uma posição mais confortável para ele em solicitar esse acesso.
Este desequilíbrio regulatório coloca em xeque a otimização dos recursos de planejamento energético.
Em janeiro, a EPE formalizou essa preocupação, enviando um ofício à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e ao Ministério de Minas e Energia (MME).
O objetivo da comunicação é solicitar a “harmonização dos requisitos de conexão” entre a Rede Básica, as Demais Instalações de Transmissão (DIT) e os Sistemas de Distribuição.
A medida visa abordar o grande volume de pedidos de conexão, não apenas de data centers, mas também de projetos de hidrogênio verde, um segmento promissor na energia limpa.
Números Alarmantes e Pressão sobre a Infraestrutura
Os dados apresentados pela EPE para o estado de São Paulo em dezembro de 2025 são ilustrativos da dimensão do problema.
Foram identificados 1.811 MW em pedidos de acesso na rede básica, 1.025 MW nas DIT e impressionantes 3.980 MW na rede de distribuição.
Somados, os pedidos nas DIT e na rede de distribuição representam cerca de 80% do total de solicitações de acesso no estado.
Prado pontuou:
Está nítido o movimento de arbitragem. A gente espera que a agência equacione isso.
Essa dinâmica está provocando uma pressão indevida sobre as distribuidoras, que, por sua vez, são levadas a aumentar suas solicitações de Montante de Uso do Sistema de Transmissão (Must).
Conforme o ofício da EPE, isso antecipa problemas nas distribuidoras e nas DIT que, sob condições normais de planejamento, seriam vislumbrados apenas em um horizonte de 10 anos ou mais.
Perspectivas Futuras e a Necessidade de Harmonização
A situação exposta pela EPE sublinha a importância de uma regulamentação mais coesa e unificada para o setor elétrico.
A proliferação de data centers e o crescimento de projetos de energia sustentável, como o hidrogênio verde, são tendências globais que impulsionam a demanda por conexões robustas.
No entanto, a falta de harmonização nos requisitos de acesso pode gerar ineficiências significativas, desperdício de recursos e atrasos no planejamento.
A expectativa é que a Aneel e o MME respondam prontamente à solicitação da EPE, buscando equilibrar os requisitos de conexão entre as diferentes redes.
Uma solução eficaz não só otimizará o trabalho de planejamento da EPE, como também garantirá um ambiente mais transparente e equitativo para os investidores em energia renovável e infraestrutura de tecnologia.

















