Empresas podem subestimar o custo de energia para 2027 ao repetir a média das faturas. O planejamento deve ir além, avaliando riscos contratuais e a volatilidade do mercado livre de energia para evitar impactos financeiros.
Com o início das discussões e a definição de prioridades para o orçamento de 2027, muitas empresas se preparam para projetar despesas com fornecedores, pessoal, tecnologia e expansão. Contudo, um dos principais componentes que frequentemente é subestimado no planejamento financeiro é a energia.
A prática comum de basear o cálculo em uma simples repetição da média das faturas anteriores pode esconder armadilhas significativas. Essa abordagem simplista pode levar companhias a subestimarem seus custos reais, a manterem contratos desalinhados com o perfil de consumo e a ignorarem riscos que impactam diretamente o caixa.
O valor efetivo pago pela energia é determinado por uma complexa teia de fatores, incluindo o volume contratado, a sazonalidade, o horário de consumo, o prazo dos contratos, as condições do mercado e até mesmo as mudanças previstas na operação do negócio.
O alerta sobre a necessidade de um planejamento energético mais robusto ganhou força após um período de notável instabilidade no mercado livre de energia. Em um cenário preocupante, levantamentos recentes, como o publicado pela Folha de S.Paulo em julho, revelaram que ao menos 11 comercializadoras acumulavam mais de R$ 6 bilhões em dívidas.
Essas análises subsequentes apontaram passivos ainda maiores entre os agentes mais afetados pela crise, acendendo um sinal de atenção para todos os consumidores.
Avaliando o custo de energia além do preço
Para Gustavo Sozzi, CEO da Lux Energia, o panorama atual demonstrou que a projeção do custo energético precisa ir muito além do simples preço por MWh. As empresas necessitam de uma visão mais estratégica e detalhada para mitigar riscos e garantir a sustentabilidade de suas operações.
A empresa precisa avaliar quanto espera consumir, mas também de quem está comprando, quais garantias existem, quando o contrato vence e qual é sua exposição caso a contraparte não consiga cumprir o acordo. Energia passou a exigir uma análise financeira e de risco mais completa.
Média das faturas pode criar falsa previsibilidade
Projetar o orçamento de energia com base exclusiva no histórico de faturas só funciona quando a operação permanece estável e as condições contratuais não sofrem alterações. Empresas que planejam abrir novas unidades, instalar equipamentos adicionais, ampliar turnos de trabalho ou elevar a produção em 2027, por exemplo, terão, inevitavelmente, um perfil de consumo diferente.
O mesmo princípio se aplica quando os contratos de energia se aproximam do vencimento. Mesmo que o volume de consumo permaneça inalterado, o preço previamente negociado pode não estar disponível na renovação. Adiar a análise e a negociação reduz drasticamente o tempo hábil para comparar propostas, negociar melhores condições e avaliar diferentes cenários de custo e risco.
Quando a energia entra no orçamento apenas como uma correção da fatura anterior, a empresa trabalha com uma previsibilidade que pode não existir. O planejamento precisa incorporar as mudanças da operação e as condições do contrato.
Além do valor financeiro estimado, as empresas devem verificar se a energia contratada realmente corresponde ao consumo esperado. Contratar um volume menor do que o necessário pode aumentar a exposição ao mercado de curto prazo, que é caracterizado por preços mais voláteis. Por outro lado, contratar acima da demanda pode resultar em pagamentos desnecessários por um volume que não será utilizado.
A volatilidade dos preços no setor elétrico é um fator crítico a ser considerado. Dados da CCEE mostram que o Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) varia ao longo do dia e é profundamente influenciado pelas condições de oferta, demanda e pela operação do sistema elétrico nacional. Essa flutuação pode impactar significativamente o custo final de energia.
A importância da solidez da comercializadora
As dificuldades financeiras enfrentadas por diversas comercializadoras em 2026 trouxeram a solidez das contrapartes para o centro da discussão. Empresas renomadas no setor, como Tradener, Electra, Elétron, IBS Energy e 2W Ecobank, foram algumas das que recorreram à recuperação judicial. Este cenário levanta sérias preocupações para os consumidores de energia.
O problema para o consumidor final não se limita à mera possibilidade de interrupção contratual. Quando uma comercializadora falha em honrar a energia vendida, a empresa adquirente pode ser obrigada a recompor sua posição no mercado em um momento desfavorável, contratando novamente por preços que diferem substancialmente dos previstos inicialmente.
Uma proposta mais barata não representa necessariamente a melhor decisão. A análise precisa considerar a capacidade financeira da comercializadora, as garantias oferecidas, a estrutura do contrato e o impacto de uma eventual quebra para a operação.
É por essas razões que a gestão de energia para 2027 não deve ser uma tarefa isolada das áreas operacionais ou de compras. Ela exige uma colaboração multidisciplinar, envolvendo os responsáveis pelo planejamento financeiro, jurídico e a gestão de riscos da companhia.
Planejamento deve trabalhar com cenários
Em vez de definir um único valor para a despesa com energia, as empresas se beneficiam ao construir diferentes projeções e cenários. Um cenário-base pode considerar a continuidade da operação, enquanto outros simulam um aumento no consumo, expansões de negócios, variações de preço, a necessidade de contratar volumes adicionais ou potenciais problemas com fornecedores.
Também é essencial mapear todos os vencimentos contratuais e identificar quais decisões críticas precisam ser tomadas ainda em 2026. Essa antecipação estratégica não só amplia a capacidade de negociação da empresa, mas também evita que ela seja compelida a contratar energia em condições emergenciais e desfavoráveis.
Para Sozzi, a principal mudança cultural está em abandonar a visão da energia como uma despesa estática e previsível.
O orçamento de 2027 não deve responder apenas quanto a empresa gastou com energia em 2026. Ele precisa mostrar quanto será necessário para sustentar o plano de negócios, quais riscos podem alterar esse valor e como a companhia pretende se proteger.
Em suma, a gestão estratégica de energia para 2027 é um pilar fundamental para a saúde financeira e a sustentabilidade operacional das empresas. Ignorar a complexidade do mercado e os riscos inerentes pode resultar em surpresas desagradáveis, impactando não apenas o orçamento, mas a capacidade da empresa de investir em crescimento e inovação no crescente setor de energia limpa e sustentável.





















