O plano de governo do senador Flávio Bolsonaro surpreende ao incorporar diretrizes energéticas da atual gestão, mantendo um alinhamento estratégico com políticas públicas de transição e gás natural.
O plano de governo apresentado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL/RJ) nesta quinta-feira trouxe uma convergência inesperada com a agenda econômica do governo Lula. Em um movimento que coloca candidatos em polos opostos, mas com pranchetas semelhantes, o documento do PL absorve diversas propostas de transição energética que consolidaram os últimos três anos da gestão petista, em alguns casos, atribuindo-lhes ainda mais ênfase técnica.
A semelhança entre os textos é notável, abrangendo desde o incentivo a biocombustíveis e energia solar até a estruturação do hidrogênio verde e a modernização da rede de transmissão. Embora o discurso político de Flávio Bolsonaro busque uma alinhamento com os Estados Unidos, especialmente no que tange a minerais críticos, o conteúdo programático espelha quase literalmente o roteiro de desenvolvimento industrial e energético que o PT apresentou em sua proposta de continuidade, protocolada no TSE.
Pontos de convergência e o diferencial do gás
Apesar da alta coincidência de temas, o plano bolsonarista se diferencia ao incluir abertamente a exploração de gás não convencional — o chamado fracking. O tema é um ponto sensível que, embora defendido por membros do alto escalão do atual Ministério de Minas e Energia (MME), não encontra espaço de destaque no programa oficial de Lula 4.
Ao tratar do gás natural, o senador do PL reforça a importância da infraestrutura de escoamento e da produção de fertilizantes, elementos que também figuram no horizonte petista. Contudo, enquanto o governo Lula aposta no protagonismo estatal através da Petrobras para alavancar a produção, o plano de Flávio Bolsonaro prioriza o setor privado.
“O papel do Estado aqui não é ser o empresário, é ser o país que funciona”, destaca o documento do candidato do PL, sugerindo a retomada de desestatizações pontuais e revisões na Lei das Estatais.
O silêncio sobre a Petrobras e o futuro regulatório
Curiosamente, o plano de Flávio Bolsonaro evita citar a Petrobras no capítulo destinado à energia. Mesmo ao abordar o pré-sal, a logística de refino e o escoamento, o texto ignora o papel central que a estatal desempenha nesses ativos. Essa omissão contrasta com a estratégia do PT, que articula sua política energética em torno da empresa e de suas subsidiárias, como a PBIO e a Transpetro.
Enquanto a disputa eleitoral se intensifica, o setor de energia observa uma curiosa “paternidade compartilhada” das agendas de transição. Seja na regulamentação do mercado de carbono (SBCE), no desenvolvimento da infraestrutura de transmissão ou na transformação do Nordeste em um polo de energia limpa, as propostas seguem um caminho paralelo, onde a semelhança das metas contrasta com a divergência na visão sobre o papel do Estado na economia.
O próximo passo desse embate será observar como os candidatos defenderão a viabilidade técnica dessas promessas. Enquanto o governo atual aposta no fortalecimento das empresas estatais como motores de investimento, a oposição sinaliza uma guinada em direção à abertura para o capital privado e à revisão de marcos regulatórios que, ironicamente, possuem raízes em políticas iniciadas sob a égide do próprio Lula.




















