A previsão de um forte fenômeno El Niño eleva o alerta no setor elétrico brasileiro, antecipando riscos de maior acionamento de térmicas e possíveis aumentos na conta de luz.
O setor elétrico brasileiro enfrenta um cenário de cautela redobrada. Atualizações da NOA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica) dos Estados Unidos indicam uma probabilidade elevada de um El Niño de forte intensidade nos próximos meses, persistindo até o início de 2027. Essa alteração climática impacta diretamente o regime de chuvas, fundamental para a produção de energia limpa e renovável vinda das hidrelétricas, pilar do sistema nacional.
Diante desse quadro, o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) e o CMSE (Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico) já articulam medidas preventivas. O objetivo principal é preservar os níveis dos reservatórios, evitando que a redução das precipitações comprometa a segurança energética do país a médio prazo.
Gestão de riscos e impacto tarifário
Para garantir o abastecimento, o governo avalia a antecipação de operações de usinas termelétricas, mesmo fora da ordem de mérito econômico tradicional. Embora o risco de desabastecimento ou apagão esteja descartado por especialistas, a mudança na matriz de geração — com maior dependência de fontes térmicas — eleva inevitavelmente os custos operacionais.
“Se chover abaixo da média, as bandeiras tarifárias serão acionadas. Não há risco de apagão. Isso está descartado”, afirma Nivalde de Castro, coordenador do Gesel/UFRJ.
A Aneel já sinalizou essa pressão ao manter a bandeira amarela vigente, refletindo o custo mais elevado da energia gerada por térmicas em comparação às hidrelétricas. Caso o cenário hídrico seja desfavorável, especialistas projetam a transição para bandeiras tarifárias mais caras, impactando diretamente o bolso do consumidor final.
Mudança estrutural no sistema elétrico
O desafio atual também revela uma transformação estrutural. Segundo Xisto Vieira Filho, presidente da Abraget, o Brasil reduziu sua capacidade relativa de armazenamento de água ao longo das últimas décadas, em um cenário onde a demanda por eletricidade cresce constantemente. Com menos grandes reservatórios, a dependência de usinas térmicas torna-se uma constante necessária para manter a estabilidade do sistema.
O diretor de Planejamento do ONS, Alexandre Zucarato, reforça que o planejamento atual incorpora lições aprendidas em crises hídricas anteriores, priorizando a segurança energética acima da redução imediata de custos. O foco agora recai sobre o volume de chuvas esperado entre outubro e o início do próximo ciclo úmido, fator que determinará a magnitude do ajuste nas tarifas de energia elétrica nos próximos anos.






















