A CTG Brasil alerta que a percepção de excesso de energia no país é um equívoco. A companhia projeta alta nos preços e defende repotenciação hídrica para evitar estresse futuro.
O mercado brasileiro de energia vive um momento de aparente contradição. Enquanto o setor lida com níveis expressivos de curtailment — o desperdício de energia renovável por limitações de transmissão — e uma oferta que parece abundante, vozes do alto escalão do setor apontam para um horizonte de escassez e aumento inevitável nos custos.
Para Evandro Vasconcelos, vice-presidente de Comercialização e Regulatório da CTG Brasil, o cenário atual é fruto de uma leitura equivocada. O executivo defende que a disponibilidade técnica imediata não reflete a realidade dos contratos de longo prazo, que são os verdadeiros balizadores para a indústria nacional.
O mito da sobreoferta e o futuro dos preços
O executivo esclarece que o mercado confunde a oferta pontual com a garantia física, que é a métrica essencial para sustentar a segurança do sistema. Com a desaceleração de novos empreendimentos de geração e a persistência dos gargalos operacionais, a oferta real está sob pressão, o que deve pressionar as tarifas para cima nos próximos anos.
A preocupação é imediata: nos últimos 24 meses, o valor dos contratos de longo prazo saltou de R$ 130/MWh para patamares entre R$ 200/MWh e R$ 250/MWh. A projeção da CTG Brasil indica que o período entre 2028 e 2030 pode ser marcado por um estresse severo nos preços, caso as medidas de planejamento não sejam ajustadas.
A percepção de oferta é distorcida ao confundir disponibilidade com a realidade dos contratos. O que define o preço para a grande indústria é o contrato de longo prazo, transacionado com base na garantia física, e a oferta real disponível nesse formato é limitada.
Caminhos para a sustentabilidade
Diante das dificuldades ambientais que inviabilizam novos grandes projetos hidrelétricos, Vasconcelos aponta que a solução reside na otimização do que já existe. A repotenciação de usinas hídricas aparece como uma alternativa ágil e de baixo custo para mitigar o déficit de potência.
Para que isso saia do papel, o executivo reforça a necessidade de estender as concessões que estão próximas do vencimento. Além das hidrelétricas, a matriz deve observar um crescimento focado em fontes térmicas e eólicas. Contudo, o especialista ressalta que a expansão do Mercado Livre de Energia precisa de mais cautela.
Ele alerta para a necessidade de salvaguardas financeiras, como chamadas de margem, para evitar a entrada de agentes sem solidez no setor, protegendo o consumidor de possíveis rupturas. O impacto final desse cenário aponta para uma reflexão sobre a estrutura tarifária brasileira.
Para Vasconcelos, o desafio não é apenas repassar custos, mas sim realizar uma redução efetiva dos encargos setoriais. Somente com a desoneração da tarifa será possível garantir que a migração para o ambiente de contratação livre seja um negócio sustentável e atrativo para os consumidores brasileiros a longo prazo.
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