A cooperação internacional na transição energética deve garantir que países produtores participem ativamente da produção industrial e dos ganhos econômicos, promovendo a agregação de valor local e a segurança de suprimentos globais, destacou a ETRI 2026 na USP.
A busca global por alternativas sustentáveis coloca em debate não apenas a substituição de combustíveis fósseis, mas também a forma como as nações se relacionam comercial e diplomaticamente. Durante a Energy Transition Research & Innovation Conference (ETRI 2026), realizada na Universidade de São Paulo (USP), especialistas de diferentes partes do mundo discutiram como a cooperação internacional pode moldar o futuro da energia limpa.
O evento evidenciou que o avanço rumo a uma economia de baixo carbono exige muito mais do que inovação científica: requer estratégia geopolítica, financiamento contínuo e distribuição justa de riquezas.
O ponto central do debate girou em torno da necessidade de transformar vastos recursos naturais e capacidades tecnológicas em desenvolvimento industrial concreto para os países produtores. A cônsul-geral da Alemanha em São Paulo, Irmgard Maria Fellner, alertou que o transporte de matérias-primas puras consome energia e gera emissões desnecessárias, defendendo que o valor agregado permaneça onde os recursos são originados.
Para a diplomata, alinhar os interesses industriais europeus com o potencial brasileiro é um passo fundamental para tornar a transição energética mais justa e equilibrada globalmente.
Do Potencial Renovável ao Mercado Global
Converter uma matriz rica em fontes renováveis em oportunidades econômicas reais exige superar barreiras regulatórias e tecnológicas. Samo Tosatti, representante do Governo de São Paulo, ressaltou que o sucesso comercial de iniciativas como o combustível sustentável de aviação (SAF), derivado do etanol brasileiro, depende de aceitação internacional e de marcos regulatórios alinhados.
A passagem do laboratório para a escala comercial, como o projeto do Centro de Pesquisa e Inovação em Gases de Efeito Estufa (RCGI-USP) que converte etanol em hidrogênio, demanda apoio financeiro robusto em todas as etapas da inovação.
A visão foi complementada por Laura Flaquer Moreira, do Governo do Reino Unido, que enfatizou a importância de apoiar desde as fases iniciais de pesquisa até pequenas empresas e startups.
Laura Flaquer Moreira afirmou:
Precisamos de investimentos e financiamento ao longo de toda a cadeia. Não se trata de um país ensinar ao outro o que fazer.
Ela reforçou a importância de parcerias horizontais na indústria de energia sustentável.
Segurança Energética Redefine Parcerias
Além dos objetivos climáticos, a urgência por autonomia econômica alterou o tom das negociações internacionais. O diplomata japonês Hideki Kamitatara apontou que o interesse do Japão pelo bioetanol brasileiro está diretamente ligado à redução da dependência de petróleo do Oriente Médio.
Essa perspectiva foi reforçada pela cônsul-geral da Turquia, Zeynep Kaleli, ao definir que o setor deixou de ser apenas uma questão de custo tecnológico para se tornar um pilar de soberania, comércio e poder geopolítico.
A busca por resiliência e diversificação também atrai nações como os Países Baixos. A vice-cônsul Mirte Ruesen destacou o interesse holandês em biorrefinarias integradas e hidrogênio verde, exemplificado por parcerias estratégicas entre portos europeus e brasileiros.
Para viabilizar essas conexões, a diplomacia e o financiamento empresarial atuam como pontes indispensáveis entre a pesquisa acadêmica e o mercado consumidor.
O Papel da Ciência na Sustentabilidade
Mesmo em setores altamente competitivos, como o de matérias-primas críticas, a cooperação científica permanece como um canal vital. Ninad Bondre, da agência sueca Vinnova, destacou que iniciativas cofinanciadas internacionalmente provam ser viáveis e necessárias para unir pesquisadores e o setor privado em torno de metas comuns de descarbonização.
A conferência consolidou o entendimento de que o enfrentamento das mudanças climáticas exige articulação multissetorial. Ao aproximar governos, universidades e o mercado, eventos como a ETRI 2026 pavimentam o caminho para que o Brasil assuma um papel central e industrializado na nova economia verde global, transformando seu enorme potencial em prosperidade duradoura.









