Compostas por 17 elementos cruciais para a transição energética e tecnologia, as terras raras têm quatro minerais que concentram 90% do valor do mercado, impulsionando desde carros elétricos até geradores de energia eólica.
As terras raras estão no centro do debate econômico e geoestratégico global. Esse grupo formado por 17 elementos químicos tornou-se indispensável para a indústria moderna, desempenhando papel decisivo na defesa nacional, na inovação tecnológica e no avanço da energia limpa. Diante desse cenário, o Brasil ocupa uma posição privilegiada por abrigar cerca de 21 milhões de toneladas em reserva mineral, ficando atrás apenas da China, que lidera com 44 milhões de toneladas, segundo dados do USGS (United States Geological Survey).
Apesar de estarem presentes em dispositivos do dia a dia, como smartphones, medicamentos e polimento de vidros, o verdadeiro motor financeiro desse setor reside na fabricação de superímãs. O geólogo Klaus Petersen, membro da AMC (Associação de Minerais Críticos), destacou a relevância desses componentes durante sua apresentação na ABM Week, evento promovido pela ABM. Segundo o especialista, cada elemento possui propriedades físico-químicas únicas, mas um grupo reduzido deles domina a demanda industrial.
A química por trás dos materiais funcionais
Compreender a estrutura das terras raras exige olhar para a tabela periódica. Esses elementos integram o grupo dos lantanídeos — englobando 15 minerais de número atômico entre 57 e 71 —, além do escândio e do ítrio. A lista completa abrange lantânio, cério, praseodímio, neodímio, promécio, samário, európio, gadolínio, térbio, disprósio, hólmio, érbio, túlio, itérbio, lutécio, escândio e ítrio. Por possuírem características químicas muito semelhantes, eles costumam ocorrer juntos na natureza.
Classificados como materiais funcionais, esses elementos têm a capacidade de modificar o desempenho de estruturas metálicas convencionais, como o aço. Sua adição melhora substancialmente a condutividade elétrica, o magnetismo, a maleabilidade e a eficiência no armazenamento de energia. Contudo, o maior obstáculo da cadeia produtiva não é a abundância geotécnica, mas sim a complexidade de processamento.
O geólogo Klaus Petersen afirmou:
“O maior problema das terras raras não é que elas sejam difíceis de encontrar. O raro é separá-las, e essa é a parte mais complexa da cadeia de produção”
Os quatro elementos gigantes do mercado
Dentro do conjunto dos 17 minerais, quatro se destacam expressivamente em termos econômicos e de aplicação comercial. Tratam-se das chamadas terras raras leves — neodímio e praseodímio — e das terras raras pesadas — disprósio e térbio. Juntos, esses quatro elementos respondem por mais de 90% do valor comercial e do volume consumido globalmente.
O especialista destacou:
“É preciso, principalmente, conhecer quatro dos elementos que compõem as terras raras. Os destaques são dois deles caracterizados como ‘terras raras leves’, o neodímio e o praseodímio, e dois considerados ‘terras raras pesadas’, o disprósio e o térbio. Esses elementos representam mais de 90% do valor e 90% do volume utilizado”
O papel fundamental na tecnologia e energia limpa
A alta demanda por esses quatro minerais é impulsionada pela produção de ímãs de terras raras de alta performance. Diferente dos ímãs tradicionais de ferrite, que perdem força magnética com o tempo e com o aumento da temperatura, os compostos de terras raras mantêm altíssima estabilidade e força magnética em tamanhos reduzidos.
Essa eficiência magnética foi o divisor de águas para a consolidação da mobilidade elétrica e da geração renovável. A adição de elementos pesados como o disprósio e o térbio garante que os motores suportem o calor intenso sem perder rendimento.
O especialista explicou:
“Carros elétricos, motores, geradores de energia eólica e máquinas de ressonância magnética, por exemplo, precisam de ímãs de terras raras em grandes quantidades. Eles são o grande destaque porque, ao contrário dos ímãs de ferrite, que perdem suas propriedades com o calor e com o tempo, os ímãs de terras raras são muito mais fortes”
Klaus Petersen acrescentou:
“Com os ímãs de terras raras, é necessária uma massa muito menor para obter força, e, com a adição de terras raras pesadas, é possível aumentar a resistência ao calor. Isso permitiu a criação de carros elétricos, já que o motor esquenta e, com ímãs de ferrite, a força seria perdida rapidamente”
Além das aplicações pesadas na transição energética, a miniaturização dos componentes permitiu avanços na microeletrônica. Fones de ouvido e pequenos alto-falantes modernos só existem devido a esses potentes microímãs. Os demais elementos do grupo, embora tenham alto valor unitário, atendem a nichos industriais específicos em quantidades reduzidas.
O geólogo destacou:
“Hoje em dia, você consegue colocar um alto-falante dentro do ouvido. Os fones têm um ímã minúsculo de terras raras e, se usássemos ímãs de ferrite, os fones precisariam ser do tamanho de uma maçã”
Ele concluiu:
“O restante dos elementos das terras raras têm aplicações específicas e podem até ter um valor mais alto, mas as quantidades utilizadas são muito pequenas, então eles possuem um mercado restrito”
O domínio técnico sobre a extração e o beneficiamento desses minerais críticos é um passo crucial para o desenvolvimento industrial sustentável e a soberania tecnológica. Com o aumento da demanda global por tecnologias de descarbonização, a difusão do conhecimento sobre a cadeia de valor das terras raras torna-se essencial. Para capacitar profissionais e expandir esse debate, a ABM está desenvolvendo cursos especializados voltados ao setor de mineração e metalurgia.












