A Volt Robotics exige mais transparência nas decisões do ONS sobre cortes de energia renovável, que já representam 67% em 2026.
O cenário energético brasileiro em 2026 aponta para um aumento expressivo nos cortes de geração, especialmente de fontes renováveis como a eólica e solar. Com mais de 60% das restrições já classificadas como “sobreoferta” pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), a consultoria Volt Robotics lança um alerta e exige maior clareza nos processos decisórios. Em um estudo recente, a empresa defende que as justificativas e dados que levam à paralisação de usinas sejam transparentes, rastreáveis e auditáveis por terceiros.
A preocupação da Volt Robotics reside na crescente incidência de “dias críticos”, quando a geração renovável precisa ser drasticamente reduzida. Entre janeiro e agosto de 2026, foram registradas 51 ocorrências desse tipo, totalizando 3,8 milhões de MW médios de energia cortada – um acréscimo de 18,3% em comparação com o mesmo período do ano anterior.
A Ascensão dos Cortes por Razão Energética
O ponto mais alarmante levantado pela Volt Robotics é a aceleração dos cortes motivados por “razão energética”, ou seja, quando a oferta de energia excede o consumo. Se em 2024 essa categoria representava 21% do total de cortes, em 2025 saltou para 49% e, nos primeiros oito meses de 2026, atingiu a marca de 67%. Essa métrica é crucial, pois cortes por essa razão não são passíveis de ressarcimento, conforme estabelece a Portaria do Ministério de Minas e Energia (MME) nº 140/2026.
A complexidade na gestão do sistema elétrico é amplificada pela expansão da geração distribuída (GD), sobre a qual o ONS tem limitada capacidade de controle. A agência reguladora, ANEEL, já autorizou cortes emergenciais em usinas de GD tipo III desde novembro de 2025, com os primeiros incidentes ocorrendo em junho e agosto de 2026.
A Volt Robotics argumenta que a falta de transparência impede a validação das decisões tomadas pelo ONS. A consultoria propõe a apresentação de cenários contrafactuais – simulações que mostrem o que teria acontecido se os cortes não fossem aplicados ou se outras soluções fossem adotadas. Isso permitiria uma análise mais aprofundada sobre a real necessidade das restrições e a avaliação de alternativas para otimizar o planejamento e a regulação do setor.
O estudo aponta e conclui:
Há intervalos com cortes classificados como energéticos e geração térmica ou hidráulica ainda elevada. Há também eventos em que alguns estados são praticamente zerados enquanto outros sofrem restrições pequenas. Nenhum desses padrões prova, sozinho, que a classificação esteja errada… Mas ambos mostram que a palavra ‘energético’ não é explicação suficiente.
Impacto nos Ressarcimentos e Projeções Futuras
A falta de clareza nas justificativas dos cortes pode ter implicações financeiras significativas. A Portaria MME 140/2026 prevê o ressarcimento de restrições ocorridas entre setembro de 2023 e novembro de 2025 por motivos de confiabilidade elétrica ou indisponibilidade externa. A Volt Robotics estima que, considerando apenas os cortes passíveis de compensação, o valor total possa chegar a R$ 4,4 bilhões. Desse montante, aproximadamente R$ 3,4 bilhões estariam associados a usinas eólicas e R$ 963 milhões a usinas solares.
A análise da Volt Robotics reforça a necessidade de um diálogo mais aberto e de dados acessíveis para todos os agentes do setor elétrico. Uma classificação mais detalhada e transparente dos cortes não apenas orienta melhor os geradores, mas também contribui para um planejamento mais eficiente e investimentos mais assertivos, evitando que recursos sejam alocados de forma inadequada ou tardia.















