A expansão da geração distribuída no Brasil enfrenta novos desafios, elevando o risco financeiro de projetos.
A rápida expansão da micro e minigeração distribuída (MMGD) no Brasil, setor que já representa 17% da matriz elétrica nacional com mais de 51 GW instalados, está começando a apresentar sinais de alerta para investidores e desenvolvedores.
De acordo com uma análise da Fitch Ratings, que acompanha 15 emissões de projetos solares de MMGD, o cenário de alta concorrência e custos operacionais crescentes tem elevado o risco de crédito dessas iniciativas.
O mercado de geração distribuída, que engloba mais de 4,6 milhões de unidades, tem se tornado cada vez mais competitivo na captação de consumidores. Essa dinâmica pode levar a uma pressão sobre os preços da energia e as receitas dos projetos, especialmente em regiões onde a MMGD já possui uma penetração significativa no consumo.
Exemplos notórios incluem as áreas de concessão da Energisa Mato Grosso do Sul e Energisa Mato Grosso, com projeção de mais de 40% do consumo cativo atendido por MMGD em 2025. A Cemig (29%), Energisa Tocantins (28%) e Copel (27%) também figuram entre as distribuidoras com alta penetração.
Desafios na Renovação de Contratos e Custos Surpresa
Um dos pontos cruciais destacados pela agência de rating é a dificuldade crescente na renovação de contratos de fornecimento de energia. Quanto maior a penetração da MMGD em uma determinada área, maior o poder de barganha dos consumidores, o que pode resultar em contratos com valores menores ou maior vacância, impactando negativamente a previsibilidade das receitas de longo prazo.
A Fitch observa que essa realidade já se materializou em alguns projetos. Relatos indicam casos onde a substituição de um cliente inadimplente por outro que contratou energia a preços inferiores reduziu a liquidez e os índices de cobertura do serviço da dívida. Houve também situações de inadimplência recorrente por parte de contrapartes, elevando o risco de liquidez.
Além da pressão contratual, os custos operacionais para os projetos solares de MMGD têm se mostrado superiores ao inicialmente orçado. Reforços de segurança, manutenção e reposição de equipamentos, e despesas com pessoal acima do esperado estão impactando as margens.
Em alguns dos projetos monitorados pela agência, os custos operacionais médios superaram em até 18% o planejado no primeiro ano completo de operação. Em cenários mais extremos, os gastos chegaram a ser 37% maiores que o previsto no segundo ano.
Impacto nas Avaliações de Crédito
Esses fatores combinados – maior concorrência, dificuldade de renovação e custos operacionais elevados – têm levado a Fitch Ratings a atribuir Perspectiva Negativa a algumas emissões de debêntures de projetos de MMGD. Em casos mais críticos, a agência já realizou o rebaixamento de ratings.
A diferença entre os modelos de contratação também influencia o nível de risco. Projetos de autoconsumo remoto, com contratos mais longos, dependem fortemente da solidez financeira do cliente. Já a geração compartilhada, com contratos mais curtos e maior pulverização de clientes, enfrenta riscos de inadimplência e da necessidade constante de renegociação.
O cenário reforça a necessidade de um planejamento financeiro robusto e estratégias de gestão de risco eficazes para os empreendimentos de micro e minigeração distribuída, um setor vital para a transição energética brasileira.
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