Projeto surpresa no Senado gera críticas de especialistas por ampliar contratação de térmicas

Projeto surpresa no Senado gera críticas de especialistas por ampliar contratação de térmicas
Projeto surpresa no Senado gera críticas de especialistas por ampliar contratação de térmicas - Foto: Reprodução / Freepik | Pixbay
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Proposta no Senado, que altera o setor energético e expande termelétricas e PCHs, gerou forte oposição de ambientalistas, entidades do setor elétrico e parlamentares.

A Comissão de Serviços de Infraestrutura (CI) do Senado aprovou recentemente um substitutivo ao projeto de lei 5.017/2019, desencadeando uma intensa onda de descontentamento entre os diversos atores do setor elétrico, grupos ambientalistas e até mesmo colegas parlamentares. A proposta, apresentada pelo relator, senador Hermes Klann (PL/SC), expande significativamente a contratação de termelétricas na Região Norte e de Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs), além de incluir mudanças na legislação de desestatização da Eletrobras e na exploração de petróleo e gás natural.

O ponto mais crítico reside na drástica alteração do escopo original do projeto de lei, que inicialmente focava apenas em descontos tarifários para irrigação e aquicultura. O substitutivo adicionou dispositivos que, para muitos, desvirtuam completamente o propósito inicial, configurando os chamados “jabutis” – emendas que não têm relação com o tema principal de um projeto. Essa manobra legislativa levanta sérias preocupações sobre a transparência e a eficácia do planejamento energético nacional.

Mudanças em debate: Geração de Energia e Petróleo e Gás

As alterações propostas pelo substitutivo são abrangentes. Entre os pontos mais polêmicos, destaca-se a determinação para a ANEEL contratar geração termelétrica movida a gás natural de origem amazônica na Região Norte, com contratos de 30 anos e custos repassados aos consumidores do Sistema Interligado Nacional, exceto os da tarifa social. Adicionalmente, prevê a contratação obrigatória de 2.500 MW de novas termelétricas a gás natural em diversas regiões do país, como Goiás, Distrito Federal, Rondônia, Triângulo Mineiro e Maranhão, e mais 4.900 MW em PCHs de até 50 MW.

Outro aspecto que gera controvérsia são as modificações na legislação da desestatização da Eletrobras e no regime de partilha da produção de petróleo e gás. O texto amplia o conceito de “custo em óleo”, permitindo que investimentos em gasodutos de escoamento sejam recuperáveis, o que pode impactar diretamente a exploração e o preço dos combustíveis. O relator, senador Hermes Klann, justificou a ampliação da proposta pela necessidade de lidar com desafios estruturais do setor elétrico brasileiro, visando reforçar o suprimento regional, especialmente em períodos de estiagem.

Reações do Mercado e Meio Ambiente

A iniciativa provocou uma forte reação de nove importantes associações do setor elétricoAbeeólica, Abiape, Abrace, Abraceel, Abradee, Abrage, Abrate, Anace e Apine. Em uma carta formal endereçada ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União/AP), as entidades expressaram sua profunda preocupação.

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“Preocupa-nos o fato de que a expansão da oferta de geração passe a ser definida diretamente em lei, mediante contratações compulsórias, em substituição ao planejamento técnico conduzido pelos órgãos competentes do setor”.

As associações criticam a forma como o texto foi aprovado, sem a devida discussão aprofundada ou o tempo necessário para que parlamentares, órgãos especializados e a sociedade pudessem avaliar seus impactos regulatórios, econômicos e operacionais. Marcello Cabral, Diretor de Novos Negócios da Abeeólica, alertou que o texto é “mais uma tentativa de voltar com os jabutis das eólicas offshore”, e apontou a inflexibilidade de 70% para as novas termelétricas como um grave problema, em um momento em que o setor elétrico busca projetos com atributos de flexibilidade.

O Instituto Internacional Arayara também se manifestou, solicitando a aprovação apenas do mérito original do PL 5.017/2019. Para a entidade ambientalista, a proposta socialmente relevante foi desvirtuada para ampliar a demanda por gás natural e impor aos consumidores os custos e riscos de novos empreendimentos fósseis. João Gabriel Resende, coordenador de Advocacy da Arayara, comparou a situação ao antigo “Brasduto“, criticando a escolha de fontes e localizações por lei, o que obriga o sistema a construir infraestruturas específicas.

Ação Parlamentar e Próximos Passos

A controvérsia também mobilizou vários senadores. Parlamentares como Izalci Lucas (PL/DF), Eduardo Braga (MDB/AM) e Laércio Oliveira (PP/SE) protocolaram requerimentos para que a proposta seja analisada por outras comissões, como a de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) e a de Assuntos Econômicos (CAE), antes de uma votação em Plenário. Além disso, emendas foram apresentadas por senadores como Luis Carlos Heinze (PP/RS), Jorge Kajuru (PSB/GO), Izalci Lucas e Teresa Leitão (PT/PE), visando suprimir total ou parcialmente os dispositivos adicionados pelo relator.

A disputa em torno do projeto de lei ressalta a tensão entre a necessidade de segurança energética e os imperativos da sustentabilidade e da transição energética. As decisões futuras terão um impacto significativo nos custos da energia para os consumidores e na direção que a matriz elétrica brasileira seguirá nas próximas décadas, influenciando diretamente a capacidade do país de avançar em energias limpas e renováveis. A expectativa é de um intenso debate no Senado, onde o futuro do setor elétrico será moldado.

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