Aneel analisa redução de multas para usinas da Essentia após apagão de 2023

Aneel analisa redução de multas para usinas da Essentia após apagão de 2023
Aneel analisa redução de multas para usinas da Essentia após apagão de 2023 - Foto: Reprodução / Freepik | Pixbay
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Discussão na Aneel pode reduzir multas para usinas da Essentia após apagão de 2023, abrindo precedente para outros casos.

A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) se prepara para debater uma proposta significativa que poderá ajustar os valores das multas impostas a 11 usinas de energia renovável da Essentia Energia, controlada pelo fundo Pátria. O foco da discussão é o expressivo apagão ocorrido em 15 de agosto de 2023, que paralisou parte do Sistema Interligado Nacional (SIN). A medida em pauta busca reduzir as penalidades financeiras de mais de R$ 4 milhões para cerca de R$ 1,4 milhão.

Este caso representa um dos primeiros recursos de geradores a serem analisados pela diretoria da agência reguladora. A decisão a ser tomada nesta terça-feira, 14 de julho, pode, portanto, estabelecer um importante precedente para a avaliação de outros processos semelhantes que ainda aguardam julgamento, impactando diretamente a forma como falhas em larga escala serão tratadas no setor.

Relator propõe redução e reclassificação de infrações

O diretor Fernando Mosna, relator do processo, apresentou um voto que sugere a exclusão da acusação de que as usinas da Essentia Energia teriam sido diretamente responsáveis pela propagação do apagão. A justificativa para essa mudança reside na dificuldade de individualizar a contribuição específica de cada planta para o evento de grandes proporções.

Contudo, o relator manteve as infrações relacionadas ao fornecimento de modelos matemáticos que não refletiam com precisão o comportamento operacional das usinas e ao atraso no cumprimento de prazos estabelecidos pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). As usinas envolvidas incluem parques eólicos como Ventos de São Vítor 12, 13 e 14, além de oito usinas solares dos complexos Sol do Sertão e Terra do Sol, localizadas na Bahia.

Entendendo o Apagão de Agosto de 2023

O incidente que abalou o sistema elétrico brasileiro em agosto de 2023 teve seu gatilho no desligamento automático de uma linha de transmissão crucial entre Quixadá e Fortaleza II. Essa falha inicial desencadeou uma cascata de eventos, incluindo quedas de tensão e a separação de regiões inteiras do SIN, como os subsistemas Norte, Nordeste e Acre/Rondônia.

A interrupção massiva de carga atingiu aproximadamente 23,4 mil MW, o que representa quase um terço da demanda nacional em um dado momento. O impacto se estendeu por 25 estados e o Distrito Federal. O restabelecimento completo do fornecimento foi oficialmente autorizado pelo ONS no final da tarde do mesmo dia.

Um relatório subsequente do ONS apontou que parques eólicos e solares apresentaram um desempenho inferior na geração de potência reativa em comparação com os modelos matemáticos utilizados para planejamento. Essa discrepância entre o previsto e a realidade em campo dificultou a identificação antecipada do risco iminente de propagação da falha.

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O Processo de Multas e Recursos

A Superintendência de Fiscalização Técnica dos Serviços de Energia Elétrica da Aneel (SFT) foi responsável pela aplicação das multas. Segundo informações de associações do setor, como a Abeeólica e a Absolar, o total das penalidades aplicadas aos geradores ultrapassou a marca de R$ 150 milhões.

No caso específico das usinas da Essentia Energia, a fiscalização analisou conjuntamente duas irregularidades. A primeira ligava o desempenho das usinas à extensão do apagão, enquanto a segunda focava no envio de modelos matemáticos que não correspondiam ao comportamento real dos empreendimentos.

As empresas apresentaram recurso em dezembro de 2024, argumentando que o relatório do ONS não comprovava a contribuição individual de cada usina e que os modelos foram enviados em conformidade com as normas vigentes. No entanto, a SFT manteve as multas em outubro de 2025, sob o argumento de que a obrigação ia além do simples envio dos arquivos, incluindo a responsabilidade pela validação e adequação dos modelos ao desempenho real.

A Interpretação da Responsabilidade Individual e Prazos

O voto do diretor Mosna argumenta que a mera existência de modelos matemáticos inadequados não é suficiente para comprovar que cada usina individualmente causou ou contribuiu para a propagação do apagão. Ele ressalta que, segundo a própria fiscalização, as medições disponíveis refletiam o comportamento agregado do sistema, o que impossibilitava determinar a exata parcela de responsabilidade de cada empreendimento.

Com base nesse entendimento, o relator propôs a descaracterização da infração mais grave, inicialmente enquadrada no Grupo V, que se refere à propagação de distúrbios por falhas de planejamento, manutenção ou operação. A infração relacionada aos modelos foi mantida, mas reclassificada para o Grupo III, por descumprimento de procedimentos de rede.

Além disso, Mosna decidiu manter a punição referente ao atraso no cumprimento de ordens do ONS. As usinas foram notificadas a entregar dados cruciais, documentação de equipamentos e validação de modelos até 30 de janeiro de 2024. Apesar de as empresas alegarem que um novo cronograma foi estabelecido posteriormente, o relator considerou que essa mudança não anula o descumprimento do prazo original.

A deliberação final sobre as multas e as conclusões deste caso na Aneel podem sinalizar uma nova abordagem na responsabilização de geradores por eventos de grande escala, especialmente em um cenário de crescente participação de fontes intermitentes como a solar e a eólica.

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