Preços da energia sobem e caem com a hora e local de produção

Preços da energia sobem e caem com a hora e local de produção
Preços da energia sobem e caem com a hora e local de produção | Reprodução: Freepik / Pixabay
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O mercado de energia brasileiro se transforma: saber o momento e local de geração é crucial para o lucro, redefinindo o valor das fontes renováveis e tradicionais.

O cenário da energia limpa e sustentável no Brasil está passando por uma revolução que vai além da simples produção de eletricidade. Para as empresas do setor elétrico, a máxima de gerar e vender o máximo possível já não é suficiente. Com as recentes mudanças regulatórias e a crescente participação das fontes renováveis na matriz elétrica nacional, a rentabilidade agora depende intrinsecamente de quando, onde e como cada megawatt é entregue ao sistema.

Essa nova dinâmica introduz dois conceitos cruciais: a modulação, que se refere à variação do preço da eletricidade ao longo das horas do dia, e o risco de submercado, que destaca as diferenças de valor entre regiões devido a limitações na capacidade de transmissão. Esses fatores combinados têm gerado cenários de lucros expressivos para algumas empresas e, inversamente, grandes desafios e até recuperações judiciais para outras, sublinhando a complexidade e a volatilidade do atual mercado elétrico brasileiro.

A Volatilidade de Preços e o Desempenho das Fontes

A partir de 2021, a precificação da energia no Brasil começou a ser calculada por hora. Desde então, as disparidades de valores no dia a dia e entre as regiões se intensificaram, impulsionadas pelo avanço da geração renovável e pela popularização da energia solar em telhados. Essa realidade moldou uma curva de preços da energia bastante específica: quedas acentuadas entre o início da manhã e o meio-dia, período de pico da geração solar, e uma reversão à tarde, com o pôr do sol e o aumento da demanda doméstica.

Nesse contexto, as hidrelétricas emergem como as grandes vencedoras, graças à sua flexibilidade para modular a produção e gerar eletricidade nos momentos de preços mais elevados. Já os parques de energia eólica têm resultados variáveis, atrelados aos regimes de vento de suas localidades. Contudo, as usinas de energia solar, por sua característica de produção concentrada durante o dia, quando os preços são mais baixos, são as que mais sofrem com a desvalorização da sua energia gerada. Cálculos da AXIA Energia indicam que no primeiro trimestre, a energia de uma hidrelétrica no Sudeste valorizou R$ 26 por MWh a mais, enquanto uma usina solar perdeu até R$ 106 por MWh em valor.

A Experiência da Auren e a Relevância da Modulação

A Auren, uma das principais geradoras de energia do Brasil, controlada por Votorantim e CPPIB, exemplifica a dinâmica do novo mercado. No primeiro trimestre, a companhia registrou um spread de modulação positivo de R$ 26 por MWh para suas usinas hídricas e de R$ 12 por MWh para a geração eólica. Em contrapartida, a energia solar da Auren apresentou um spread negativo de R$ 88 por MWh. Esses valores contrastam fortemente com 2023, quando os spreads de modulação eram de apenas R$ 1 ou R$ 2 por MWh, evidenciando a rápida e profunda transformação do setor.

Fabio Zanfelice, CEO da Auren, destacou a reviravolta no papel das hidrelétricas:

“Três anos atrás as hidrelétricas estavam demonizadas. Agora elas viraram o hedge natural do setor.”

Os ganhos da Auren com a modulação, que somaram R$ 97 milhões no primeiro trimestre, superaram pela primeira vez as perdas de R$ 86 milhões com o curtailment – o corte na geração de energia de suas usinas eólicas e solares devido ao excesso de oferta.

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Desafios para Comercializadoras e Investidores

As mudanças no mercado de energia não foram benéficas para todos. Algumas comercializadoras de energia, que assumiram os riscos de modulação ao adquirir energia solar e revendê-la, enfrentaram dificuldades, resultando em recuperações judiciais, como nos casos da Gold Energia e da Tradener. Uma fonte do mercado ressaltou a imprevisibilidade da situação:

“Isso era visto como um risco administrável no passado. Algum spread era esperado, mas ninguém previa que chegaria nessa profundidade.”

Empresas focadas exclusivamente em energia eólica ou energia solar também enfrentam um momento de grande desafio, com a combinação dos riscos de modulação, risco de submercado e curtailment. Segundo um especialista do setor de comercialização,

“Quem está na condição mais confortável são mesmo os grupos que têm majoritariamente hidrelétricas,”

confirmando a importância da diversificação da matriz de geração e da flexibilidade operacional.

O Foco do Mercado Financeiro

Essa nova realidade do mercado elétrico atraiu a atenção de analistas e investidores. A equipe de research do BTG, por exemplo, lançou um “monitor da modulação” para acompanhar a volatilidade nos preços horários de energia. Em relatórios recentes, o banco listou o spread de modulação como um fator chave para investidores que avaliam empresas do setor elétrico como AXIA Energia, Auren, Copel, CPFL e Engie, sublinhando a necessidade de uma análise mais aprofundada sobre a composição e gestão dos ativos de geração de energia.

Em suma, o mercado de energia brasileiro está em plena efervescência, exigindo das empresas um olhar estratégico que contemple não apenas a quantidade, mas a qualidade da geração em termos de tempo e localização. A adaptabilidade e a diversificação das fontes de energia são, mais do que nunca, cruciais para a sustentabilidade e rentabilidade no dinâmico setor de energia limpa e sustentável do Brasil, impulsionando a inovação em gestão de energia e investimento em energia.

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