Reajuste de 24% no preço de radioisótopos e radiofármacos pela Cnen acende alerta na medicina nuclear brasileira, impactando custos e o acesso a tratamentos essenciais.
A Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) anunciou um reajuste médio linear de 24% nos preços de radioisótopos e radiofármacos produzidos por suas unidades. A medida, oficializada em resolução, entrará em vigor a partir de 1º de agosto e abrangerá todo o portfólio comercializado pelo Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), pelo Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN) e pelo Centro Regional de Ciências Nucleares do Nordeste (CRCN-NE). Esta decisão levanta preocupações significativas no setor da saúde.
A Cnen justifica o aumento como uma forma de restabelecer o equilíbrio econômico-financeiro da produção. Fatores como a valorização de insumos importados, flutuações cambiais, inflação e reajustes contratuais e de pessoal foram citados como os principais motivadores. No entanto, o setor de medicina nuclear teme as consequências, especialmente em um cenário onde a remuneração por serviços permanece estagnada, gerando um descompasso financeiro que pode comprometer o acesso a diagnósticos e terapias cruciais.
Impacto nos Serviços de Saúde e Pacientes
Os radioisótopos são a base para a criação dos radiofármacos, medicamentos indispensáveis em exames de diagnóstico por imagem e tratamentos contra diversos tipos de câncer, além de outras enfermidades. A Cnen, por meio de suas unidades, abastece aproximadamente 430 clínicas e hospitais em todo o Brasil, viabilizando mais de dois milhões de procedimentos médicos anuais nas áreas de cardiologia, oncologia e neurologia, entre outras. A importância desses insumos para a saúde pública é inquestionável.
Apesar do reconhecimento da relevância estratégica desses materiais para o Sistema Único de Saúde (SUS) e para a saúde suplementar, a resolução da Cnen gerou forte apreensão. Profissionais do setor argumentam que, enquanto os custos de produção sobem drasticamente, a remuneração dos serviços de medicina nuclear, baseada em tabelas do SUS historicamente defasadas, não acompanha essa escalada. Este desequilíbrio tende a agravar a situação econômica das clínicas, especialmente aquelas que atendem a população de baixa renda.
Reação da Abdan e a Questão da Infraestrutura Nacional
A Associação Brasileira para Desenvolvimento das Atividades Nucleares (Abdan) expressou sua preocupação com o reajuste. Segundo Celso Cunha, presidente da entidade, o aumento impactará diretamente a população devido à desigualdade no acesso a esses recursos essenciais no Brasil. Ele enfatiza que a questão vai além do aspecto médico, sendo um problema de infraestrutura nacional.
“Não se trata apenas de uma questão médica. Trata-se de uma questão de infraestrutura nacional. O Brasil possui mais de 440 serviços de medicina nuclear em funcionamento e uma rede de profissionais altamente qualificados, incluindo médicos nucleares, físicos médicos, tecnólogos e equipes multidisciplinares especializadas. Ainda assim, a capacidade de expansão do setor enfrenta limitações importantes relacionadas à produção de insumos estratégicos e ao fortalecimento da cadeia produtiva nacional”, afirmou Cunha.
A dependência brasileira da produção nacional de radioisótopos e da importação de parte desses insumos é um ponto crítico. Há quase duas décadas, a construção do Reator Multipropósito Brasileiro (RMB) é prometida como uma solução estratégica para ampliar a produção doméstica, reduzir a dependência externa e assegurar o abastecimento. Contudo, apesar de sucessivos anúncios governamentais, o projeto permanece sem avanços concretos.
Perspectivas Futuras e a Busca por Respostas
O aumento de 24% nos preços de radioisótopos e radiofármacos representa um desafio complexo para o setor de medicina nuclear no Brasil. A necessidade de recomposição financeira da produção da Cnen é reconhecida, mas a falta de atualização na remuneração dos serviços prestados gera um impasse que pode comprometer a sustentabilidade das clínicas e o acesso dos pacientes a tratamentos e diagnósticos vitais. A reportagem tentou contato com a Cnen para obter esclarecimentos sobre os impactos e as razões do reajuste, especialmente diante da estagnação da tabela SUS, mas não obteve resposta até o fechamento desta publicação. A comunidade espera que soluções sejam encontradas para garantir a continuidade e a expansão desses serviços essenciais à saúde brasileira.





















