Queda de 18,6% nas operações de M&A em energia no Brasil em 2025 aponta para um novo ciclo. Gargalos de transmissão e a ascensão dos data centers redesenham o panorama para futuros investimentos em energia sustentável.
O mercado brasileiro de energia limpa e sustentável vivenciou um período de reajuste em 2025. As operações de fusões e aquisições (M&A) no setor de energia registraram uma retração de 18,6% em comparação ao ano anterior, com o número de negócios fechados diminuindo de 86 em 2024 para 70, conforme levantamento da PwC Brasil. Essa diminuição, contudo, não reflete uma perda de atratividade, mas sim uma acomodação do setor.
Essa redução quantitativa nas transações esconde uma importante reorientação estratégica. Especialistas apontam que, apesar do menor volume de M&A, o Brasil continua sendo um polo atrativo para investimentos em energia. O foco se desloca para a infraestrutura energética, impulsionado pela necessidade de superar os gargalos de transmissão e pela crescente demanda por energia elétrica de grandes data centers, que são cruciais para o avanço da inteligência artificial.
Acomodação do Mercado e Visão da PwC
A PwC Brasil interpretou a queda no número de transações de M&A como uma acomodação natural para um setor de energia que vinha de anos de intenso crescimento. Favian Goitia, sócio da PwC Brasil, ressaltou que, embora a falta de transparência no país dificulte a medição exata dos valores negociados, a robustez do mercado de energia permanece evidente.
Segundo Goitia, o período anterior foi marcado por investimentos significativos em geração distribuída e em grandes projetos de energia renovável. Mesmo diante de fatores como juros elevados, a proximidade do calendário eleitoral e o cenário geopolítico, o Brasil mantém sua alta atratividade para investimentos em energia sustentável, demonstrando uma resiliência notável.
Desafios de Transmissão e a Ascensão dos Data Centers
Para os próximos anos, a infraestrutura de transmissão de energia emerge como o principal foco dos investimentos em energia. O Brasil enfrenta um desafio crucial: a limitação na capacidade de escoar a energia gerada, o que ocasionalmente leva a cortes no sistema, conhecidos como `curtailment`. Favian Goitia estima que a solução para esses gargalos possa levar entre dois e três anos.
A urgência em expandir a infraestrutura energética é amplificada pelo crescimento exponencial da inteligência artificial e pela proliferação de data centers. Essas instalações demandam volumes elevadíssimos de energia elétrica e já movimentam cifras bilionárias, mesmo em meio a indefinições regulatórias. Um exemplo notável é o acordo de US$ 2 bilhões entre a Omnia Data Centers e a Casa dos Ventos, evidenciando a força desse nicho no setor de energia.
O Brasil como Polo de Energia Tecnológica
Daniel Martins, também sócio da PwC, reforça o posicionamento do Brasil como um centro estratégico para atender à crescente demanda tecnológica por energia. O país, com sua matriz energética diversificada, vasto estoque de projetos de energia renovável e previsibilidade regulatória, oferece um ambiente propício para investimentos.
“A matriz energética diversificada, o estoque de projetos e a previsibilidade regulatória tornam o Brasil um centro de oportunidades para atender à nova demanda tecnológica.”
Esse cenário solidifica o potencial do Brasil para se estabelecer como um hub crucial na interseção entre tecnologia e energia sustentável.
Tendência Ampliada no Setor de Energia e Mineração
A desaceleração das operações de M&A em 2025 não se restringiu ao setor de energia elétrica; ela refletiu uma tendência mais ampla observada em todo o setor de energia no Brasil, que inclui também óleo e gás, mineração, metais e químicos. O número total de transações nesse segmento expandido caiu de 158 em 2024 para 129 no ano seguinte.
O segmento de metais e mineração, em particular, viu suas operações recuarem de 29 para 23. Contudo, este setor também está posicionado para se beneficiar da transformação digital e do aumento da demanda por minerais essenciais para tecnologias limpas e infraestrutura de dados. A necessidade de expandir a capacidade produtiva é evidente, como ilustrado pela venda da mineradora Serra Verde para a USA Rare Earth por US$ 2,8 bilhões, destacando o movimento de capital em direção a recursos estratégicos para a transição energética.
A queda nas operações de M&A no setor de energia brasileiro em 2025, embora inicialmente possa parecer um retrocesso, na verdade sinaliza uma evolução e um amadurecimento do mercado de energia sustentável no Brasil. O foco migra da simples geração para a otimização e expansão da infraestrutura energética, um passo essencial para garantir a segurança e impulsionar a inovação.
O Brasil continua sendo um polo estratégico para investimentos, especialmente à medida que o mundo avança na transição energética e na digitalização. A integração de tecnologias verdes com a demanda crescente por energia da inteligência artificial e data centers promete moldar um futuro dinâmico e repleto de oportunidades para o setor de energia limpa e sustentável do país.























