O recente corte emergencial de geração determinado pelo ONS revela que a infraestrutura elétrica do Brasil ainda não está preparada para a robusta expansão das energias renováveis.
As intervenções operacionais executadas pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) no último domingo (07/06) expuseram uma fragilidade crítica no setor elétrico nacional. Para gerir o excedente de energia durante o feriado, o órgão precisou limitar a geração, um cenário que, segundo a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), é o reflexo de um descompasso entre o crescimento da matriz limpa e o atraso no investimento em tecnologias de armazenamento e flexibilidade.
Para os especialistas, o que aconteceu não foi um evento isolado, mas uma consequência previsível de uma matriz que avançou significativamente, enquanto a base regulatória e infraestrutural estagnou. Diferente de outros mercados globais que já integraram sistemas de baterias para estabilizar o sistema, o Brasil ainda lida com gargalos que impedem a plena autonomia das fontes variáveis.
Um desafio de transição
Rodrigo Sauaia, CEO da Absolar, enfatiza que o Sistema Interligado Nacional (SIN) atingiu um marco divisor. “O sistema elétrico nacional cresceu em geração renovável, porém sem o correspondente investimento em mecanismos de flexibilidade, armazenamento de energia elétrica e controle de carga. O desequilíbrio não é resultado da expansão de apenas uma fonte, tecnologia ou modalidade de geração, mas da falta de política pública estrutural adequada para acompanhar essa expansão”, aponta o executivo.
Com mais de 70 GW de capacidade solar e 34 GW em eólica, a matriz brasileira é uma das mais limpas do mundo, mas o sucesso traz desafios. Bárbara Rubim, presidente do conselho da Absolar, ressalta a importância dessa diversificação, mas alerta para o déficit de planejamento: “No entanto, transições de escala exigem planejamento e infraestrutura compatíveis, capazes de viabilizar a adequada gestão dos recursos disponíveis. É exatamente neste quesito que o Brasil acumula um preocupante déficit”.
Principais entraves ao armazenamento
A entidade aponta três pontos fundamentais que travam o avanço do setor:
1. Carga tributária: A taxação superior a 70% sobre sistemas de baterias é vista como um obstáculo desproporcional. “Enquanto apostas esportivas, bebidas alcoólicas e armas têm tratamento tributário mais favorável do que equipamentos essenciais para a segurança do sistema elétrico, a sociedade sofre um desnecessário risco operacional por essa distorção”, critica Sauaia.
2. Ausência de leilões específicos: A falta de certames focados em baterias em larga escala impede que o sistema tenha a flexibilidade necessária para absorver picos de oferta.
3. Regulação atrasada: Embora marcos como a Lei n° 15.269/2025 tenham surgido, a implementação prática ainda esbarra em passos lentos.
A operação do ONS
Durante o último final de semana, o ONS coordenou uma operação para gerenciar cerca de 1.000 MW de excedente, entre as 10h e 14h. A medida visou contrabalançar o pico de geração distribuída com a baixa demanda característica de um feriado prolongado. O órgão afirmou ter atuado em sintonia com as distribuidoras para assegurar que a estabilidade do SIN fosse mantida, reforçando que as manobras foram necessárias diante do cenário atual.
O futuro do setor elétrico depende agora da aceleração na modernização tarifária e de uma regulação mais ágil para o armazenamento “atrás do medidor”. Sem essas reformas, o Brasil continuará a conviver com limitações operacionais que restringem o potencial de sua matriz renovável, desperdiçando energia abundante em vez de armazená-la para momentos de necessidade.























