A Engie Brasil condiciona investimentos cruciais em hidrelétricas reversíveis, que visam ampliar a flexibilidade do sistema elétrico, à renovação das concessões de seus ativos hidrelétricos existentes.
Em um cenário onde a matriz energética brasileira busca maior resiliência e sustentabilidade, a Engie Brasil surge como um player fundamental na discussão sobre o futuro do Sistema Interligado Nacional (SIN). A companhia está avaliando ativamente projetos de usinas hidrelétricas reversíveis (UHRs), uma tecnologia promissora para aprimorar a capacidade de armazenamento de energia. Essa iniciativa é crucial para integrar de forma mais eficiente as crescentes fontes intermitentes, como a energia eólica e solar, que hoje representam um desafio em termos de constância na geração.
O ponto central, no entanto, é que a viabilização desses investimentos de grande porte está intrinsecamente ligada à garantia de longo prazo para as concessões de suas atuais hidrelétricas. Sem a renovação dessas licenças, a empresa vê-se impedida de prosseguir com aportes que exigem um horizonte operacional robusto para o retorno do capital investido e a maturação tecnológica. A decisão da Engie ressalta a importância da previsibilidade regulatória para a atração de capital em projetos de infraestrutura energética.
O Potencial das UHRs para a Estabilidade Energética
As usinas hidrelétricas reversíveis representam uma solução inovadora para a flexibilidade do sistema elétrico. Elas operam com dois reservatórios em altitudes distintas: durante períodos de excesso de energia na rede – muitas vezes devido à alta geração de fontes eólica e solar – a água é bombeada do reservatório inferior para o superior. Quando há necessidade de suprimento adicional, essa água é liberada, gerando eletricidade.
Entre os ativos em análise pela Engie para uma possível conversão ou adaptação a esse modelo está a UHE Salto Osório, no Paraná. A infraestrutura existente seria reaproveitada para funcionar não apenas como geradora, mas também como um grande “banco” de energia, permitindo gerenciar a oferta e demanda de eletricidade ao longo do dia e da noite.
A Necessidade de Previsibilidade para Investimentos de Longo Prazo
O investimento em UHRs é capital-intensivo e, por isso, demanda clareza quanto ao futuro das operações. Para a Engie, a definição sobre a continuidade de suas concessões é um fator determinante para a viabilidade econômica de qualquer empreendimento desse porte. Sem um prazo adequado de exploração, os longos ciclos de construção e retorno financeiro tornam-se inviáveis.
Guilherme Ferrari, diretor de Energias Renováveis e Armazenamento da Engie, enfatizou a importância da segurança jurídica para os projetos:
Precisamos de previsibilidade para avançar na avaliação de investimentos de longo prazo associados aos ativos existentes.
O Cenário Regulatório e de Inovação
A discussão sobre o armazenamento de energia e o papel das UHRs não se limita apenas à Engie. A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) também conduz estudos abrangentes para identificar e avaliar o potencial de projetos similares em desenvolvimento no país, reforçando a relevância estratégica da tecnologia para o setor.
Além disso, a Engie defende que a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) promova maior flexibilidade na aplicação dos recursos obrigatórios de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (P&D). O objetivo é direcionar parte desses recursos para iniciativas de armazenamento de energia e outros modelos tecnológicos ainda em fase de validação, impulsionando a inovação no setor.
A modernização da matriz energética brasileira passa invariavelmente pela capacidade de armazenar e despachar energia de forma flexível. Projetos de hidrelétricas reversíveis, como os avaliados pela Engie, são peças-chave nessa transição.
Contudo, para que o potencial seja plenamente explorado, é imperativo que o ambiente regulatório ofereça a estabilidade e a previsibilidade necessárias, especialmente no que tange à renovação das concessões de ativos estratégicos. A decisão final sobre a continuidade dessas licenças não apenas impactará a capacidade de armazenamento do SIN, mas também sinalizará o nível de comprometimento do país com uma infraestrutura energética mais robusta e adaptada aos desafios das fontes renováveis intermitentes.
















