A Energisa defende que, para garantir a estabilidade da rede elétrica, o sinal de preço não basta: distribuidoras precisam de autonomia para gerir cargas críticas em momentos de estresse.
O setor elétrico brasileiro atravessa um período de transformação profunda, impulsionado pela abertura do mercado livre e pela crescente participação de fontes renováveis. Contudo, a transição para um modelo mais dinâmico levanta um debate urgente: como equilibrar oferta e demanda quando os mecanismos de precificação falham em induzir mudanças imediatas no comportamento do consumidor?
Para Fernando Maia, vice-presidente de Regulação e Relações Institucionais do Grupo Energisa, o desafio exige mais do que apenas indicadores financeiros. Durante o evento Tendências do Setor Elétrico em 2027, realizado no Rio de Janeiro, o executivo argumentou que as distribuidoras precisam de ferramentas ativas para intervir no sistema antes que falhas ocorram.
Além dos sinais tarifários
A proposta da Energisa sugere que as concessionárias atuem com autonomia para controlar cargas críticas, em um modelo que espelha os programas de resposta da demanda do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). A ideia é permitir a pré-contratação do direito de desligar cargas específicas em momentos de sobrecarga ou reduzir a injeção de energia quando a demanda está baixa.
Essa necessidade de gestão ativa ficou evidente no projeto Tarifa Melhor Hora, um sandbox tarifário iniciado em novembro de 2024. Os dados preliminares revelaram que, embora o preço horário seja um incentivo técnico, o consumidor final ainda demonstra uma resposta limitada à variação de custos em tempo real.
“O sinal de preço é um componente necessário, mas não é suficiente. Precisamos que a distribuidora tenha a capacidade de atuar diretamente na gestão de recursos em cenários críticos, garantindo a resiliência do sistema.”
Desafios da infraestrutura e abertura de mercado
O debate também tocou em pontos sensíveis como a implementação da tarifa branca para consumidores de baixa tensão. Maia ressalta que o avanço deve ser cauteloso, priorizando a instalação de medidores inteligentes, conforme estabelecido pelo decreto nº 12.068/2024. Sem o suporte tecnológico adequado, o custo de implementação pode se tornar um ônus inútil ao sistema.
O executivo também lançou um alerta sobre as expectativas em torno da abertura total do mercado livre de energia. Ele ponderou que, embora o movimento seja essencial para a competitividade, não se deve alimentar a ilusão de que a medida resultará automaticamente em uma queda expressiva nas contas de luz para o consumidor final, citando lições e riscos identificados em experiências internacionais.
Perspectiva para a rede elétrica
A busca por soluções que enfrentem o curtailment — o desperdício de energia renovável por excesso de oferta — e as rampas acentuadas de fim de dia é o próximo grande teste para o planejamento energético brasileiro. Ao defender uma postura mais proativa das distribuidoras, a Energisa coloca em pauta a necessidade de modernizar a regulação para que a infraestrutura acompanhe a velocidade da transição energética.
O futuro do setor, portanto, parece caminhar para um modelo híbrido: onde o sinal de preço orienta, mas a inteligência operacional das concessionárias decide, garantindo a segurança de uma rede cada vez mais volátil e digital.





















