O uso estratégico de baterias pode encerrar o desperdício de energia renovável no Brasil, permitindo o armazenamento do excedente que hoje é descartado pelo ONS devido ao curtailment.
A transição energética brasileira enfrenta um obstáculo técnico e financeiro significativo: o curtailment, ou o desligamento forçado de usinas eólicas e solares. Para o diretor-executivo da Absae (Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia), Fabio Monteiro Lima, a solução para esse gargalo reside na implementação em larga escala de tecnologias de armazenamento.
Em entrevista recente, Fabio Lima defendeu que o acoplamento de sistemas de baterias aos parques geradores transformaria o cenário atual. Em vez de simplesmente descartar a energia quando a rede atinge sua capacidade máxima de absorção, as usinas poderiam reter esse excedente. Dessa forma, o insumo estaria disponível para ser injetado no sistema em horários de pico, garantindo maior eficiência e novas fontes de receita para os investidores.
Barreiras tributárias e a necessidade de sinais econômicos
Embora a tecnologia seja promissora, o setor esbarra em um entrave tributário severo. O custo de importação dos equipamentos chega a 70%, o que desestimula a adoção imediata pelos parques de geração. Para Fabio Lima, a regulação precisa atuar como indutora, criando condições para que o investimento se torne viável.
“O que a gente precisa é dar o sinal econômico correto. Por que esses empreendedores que estão sofrendo curtailment ainda não investiram em baterias? Porque eles têm uma tributação de 70%, porque ainda não reduziam nada o seu uso da rede de transmissão e porque eles não conseguiam acessar um mercado de capacidade a partir dessas baterias.”
O executivo ressalta que o atual modelo de operação penaliza projetos renováveis, especialmente no Nordeste, onde a abundância de recursos solares e eólicos supera, em diversos momentos, a capacidade da infraestrutura de transmissão nacional.
Impacto no consumo e na microgeração
A proposta da Absae vai além das grandes usinas. Fabio Lima defende a modernização do modelo de cobrança de energia elétrica, sugerindo a implementação da tarifa horária. Esse formato enviaria sinais de preço mais precisos ao mercado, incentivando o consumo nos momentos de maior oferta de energia renovável e reduzindo a sobrecarga na rede durante as horas de pico noturno.
Quanto à geração distribuída, que já soma mais de 44 GW de capacidade instalada, o uso de baterias domésticas é visto como o caminho para a sustentabilidade do modelo. O especialista argumenta que, com incentivos adequados, o consumidor final também passará a ser um agente ativo no equilíbrio do sistema.
“Com o sinal econômico correto, com tarifa horária, com sinalização da participação no mercado de capacidade, naturalmente o investidor de geração distribuída […] vai adotar uma bateria na sua própria residência e, com isso, vai deixar de despejar aquela energia na rede no momento de menor interesse sistêmico.”
O futuro da matriz elétrica nacional depende, portanto, da transição de um sistema focado apenas na geração para um modelo que priorize a flexibilidade e a gestão inteligente do armazenamento, reduzindo prejuízos e maximizando o aproveitamento da energia limpa produzida no país.




















