Mercado de baterias no Brasil busca diversificar fontes de receita para viabilizar investimentos.
O futuro do mercado de sistemas de armazenamento de energia no Brasil, impulsionado por baterias, está intrinsecamente ligado à capacidade de criar mecanismos que permitam a diversificação das fontes de receita. Essa foi a principal conclusão do painel sobre o tema no Lefosse Energy Day 2026, realizado em 26 de agosto.
Embora os primeiros leilões de reserva de capacidade (LRCap) remunerem a disponibilidade de potência dos sistemas, eles não contemplam a gama completa de serviços que a tecnologia de baterias pode oferecer. Especialistas apontam que, para o pleno desenvolvimento do setor, é crucial reconhecer e monetizar os múltiplos atributos que essas soluções entregam à rede elétrica e aos consumidores.
Serviços além da Potência
Durante o evento, ficou evidente que as baterias possuem um potencial que vai muito além da simples reserva de capacidade. Elas são capazes de deslocar o consumo de energia entre diferentes horários, fornecer suporte de frequência e auxiliar na estabilização da rede. No entanto, a ausência de modelos de remuneração específicos para esses serviços limita o aproveitamento total do seu valor.
Rafael Gabriel, gestor de usinas solares da WEG, afirmou:
O negócio entrega muito mais do que apenas a potência remunerada.
Ele exemplificou com projetos internacionais onde as mesmas baterias são remuneradas por diferentes tipos de prestação de serviço. No Brasil, essa prática ainda é incipiente.
Estratégias de Portfólio e Novos Modelos de Negócio
A aplicação de sistemas de armazenamento de energia (BESS – Battery Energy Storage Systems) se estende à gestão estratégica do portfólio energético das empresas. Miriam Diniz, diretora da Álava Energia, ressaltou que o BESS pode ser integrado a contratos de compra e venda de energia (PPAs), autoprodução e outras modalidades de contratação, otimizando custos e garantindo maior flexibilidade operacional.
Modelos como o BESS as a Service também emergem como alternativas para reduzir a barreira do investimento inicial, tornando a tecnologia mais acessível. Diniz prevê que, enquanto as baterias se tornam mais padronizadas, o diferencial competitivo estará na engenharia de aplicação e nos modelos de negócio inovadores.
Empresas industriais podem se beneficiar diretamente, aumentando a produção em horários de menor demanda energética ou minimizando perdas em caso de interrupções. Contudo, a captura total desse valor gerado ainda é um desafio.
A Remuneração dos Atributos em Debate
A necessidade de remunerar os diversos atributos das baterias foi um tema recorrente. Mário Menel, presidente da Abiape, defendeu um modelo onde custos e receitas sejam alocados conforme os benefícios entregues ao sistema, reconhecendo a flexibilidade, energia e potência como serviços valiosos.
Marcelo Girão, diretor de project finance do Itaú BBA, ponderou que serviços ancilares e arbitragem de preços, por serem mais voláteis, são tratados com maior cautela por financiadores. Entretanto, reconheceu que essas receitas adicionais podem ser decisivas para a atratividade de um projeto.
Apesar do otimismo, especialistas alertaram que as baterias não são uma solução isolada para os desafios de flexibilidade do setor elétrico. A expansão da transmissão e sinais econômicos adequados são igualmente cruciais. A Abrate também enxerga o potencial dos sistemas de armazenamento como alternativas para otimizar a expansão da rede de transmissão em cenários específicos.
O avanço do mercado de baterias no Brasil, portanto, dependerá da habilidade do setor em traduzir a capacidade multifuncional dessa tecnologia em modelos de negócio rentáveis e sustentáveis.
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