O Brasil desperdiça energia renovável em níveis alarmantes, impactando os balanços do 2T26 de diversas empresas e desafiando o avanço da sustentabilidade no setor.
Apesar de uma ligeira redução no volume de energia renovável não utilizada em junho, o Brasil ainda enfrenta um desafio estrutural significativo no seu setor elétrico. Dados recentes divulgados pelo relatório do Itaú BBA indicam que o índice de curtailment — a redução forçada da geração de energia — atingiu 18,2% da capacidade potencial de usinas eólicas e solares no mês. Embora seja uma queda em relação aos 20,7% de maio, o patamar supera os 16,7% registrados em junho do ano passado, sinalizando uma deterioração contínua das condições operacionais para esses empreendimentos limpos no Sistema Interligado Nacional (SIN).
Esse cenário de perdas crescentes no segundo trimestre de 2026 acende um alerta para investidores e companhias, impactando diretamente a previsibilidade de receita e a saúde financeira de projetos de energia limpa. O problema, que se manifesta há alguns anos, agora ganha uma nova e preocupante dimensão, refletindo um descompasso evidente entre a rápida expansão da geração verde e a capacidade de consumo do país.
Curtailment: Uma Realidade Persistente no Setor de Energia Limpa
O curtailment, termo técnico que descreve a interrupção compulsória da geração de energia pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), tem se consolidado como um dos maiores entraves ao pleno desenvolvimento da energia renovável no Brasil. Tradicionalmente associado a limitações na infraestrutura de transmissão ou questões de estabilidade da rede, o fenômeno tem sido cada vez mais impulsionado pela “razão energética”, ou seja, a simples falta de demanda para absorver toda a produção disponível. Este desequilíbrio é particularmente notável em períodos de alta geração solar e eólica, somados a reservatórios hidrelétricos em níveis confortáveis e baixo crescimento do consumo.
Detalhes dos Cortes em Junho
Em junho, as usinas solares sofreram as maiores restrições, com um curtailment de 25,4% da geração potencial, uma pequena melhora frente aos 28,4% de maio, mas ainda acima dos 24,8% de junho de 2025. Para a energia eólica, o índice recuou de 18,0% para 15,7% no mesmo período, mas também se manteve acima dos 13,9% observados um ano antes. Na prática, isso significa que um quarto da energia solar que poderia ter sido gerada no país em junho não se converteu em receita para os produtores, gerando impactos financeiros consideráveis para projetos com altos níveis de alavancagem e contratos de longo prazo.
Impacto Direto nos Balanços das Empresas
A recorrência e a intensidade do curtailment começam a se refletir de forma expressiva nos resultados financeiros das companhias de energia. No segundo trimestre de 2026 (2T26), o curtailment médio consolidado alcançou 19,3%, superando os 16,2% do primeiro trimestre e os 14,9% do 2T25, evidenciando o agravamento do problema. O Itaú BBA destaca que essa piora se deve principalmente à falta de demanda.
“O avanço na comparação anual foi puxado principalmente pelo corte por razão energética, associado à falta de demanda. Já os cortes por confiabilidade elétrica e indisponibilidade externa ficaram em linha com o mês anterior.”
Em termos absolutos, a Auren Energia foi a mais afetada em junho, com mais de 200 MW médios de geração interrompida. Considerando a proporção das perdas em relação à geração total, a CPFL Energia e a Alupar registraram os maiores impactos, com cortes que ultrapassaram 28% da produção potencial de seus portfólios. No consolidado do 2T26, a Auren contabilizou 702 GWh de corte, seguida pela Comerc Energia (475 GWh) e Equatorial Energia (303 GWh). A Cemig, por sua vez, foi a única a apresentar uma redução relativa de curtailment no período.
Desafios e Soluções para o Futuro da Energia Limpa
A dimensão econômica do curtailment é inegável, representando perda de receita para empresas no Ambiente de Contratação Livre (ACL) e aumentando a percepção de risco para investidores em novos projetos. O mapeamento geográfico do ONS revela que os focos de congestionamento mudaram para a energia eólica, com o Rio Grande do Norte, especialmente nas subestações de João Câmara e Jandaíra, agora liderando as restrições. Para a energia solar, a Bahia permanece como o epicentro dos cortes, concentrando grande parte das subestações mais impactadas, com perdas superiores a 25% também em São Paulo e Minas Gerais.
Este cenário pressiona o governo federal, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e o ONS a buscarem soluções urgentes. Entre as medidas em discussão estão a expansão de leilões de transmissão, a implementação de sistemas de armazenamento por baterias (BESS), o aprimoramento da resposta da demanda e a criação de mecanismos econômicos que sinalizem a necessidade de flexibilidade no setor elétrico.
O paradoxo é claro: enquanto o Brasil avança na capacidade de geração de energia limpa, uma parcela crescente dessa produção não consegue ser efetivamente consumida. A urgência em resolver o problema do curtailment é fundamental para garantir a segurança energética do país e a sustentabilidade econômica do vibrante setor de energia renovável, assegurando que o investimento em fontes verdes traga o retorno esperado e contribua plenamente para a transição energética brasileira.























