CNPE discute criação de grupo de trabalho para destravar valorização energética de resíduos

CNPE discute criação de grupo de trabalho para destravar valorização energética de resíduos
CNPE discute criação de grupo de trabalho para destravar valorização energética de resíduos - Foto: Reprodução / Freepik | Pixbay
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O Ministério de Minas e Energia incluiu na pauta do CNPE a criação de um grupo de trabalho focado na valorização energética de resíduos, buscando destravar o aproveitamento de lixo como fonte de energia limpa.

O Brasil está avançando em sua agenda de transição energética e sustentabilidade com uma importante iniciativa que promete transformar o cenário de gestão de resíduos. O Ministério de Minas e Energia (MME) propôs a criação de um grupo de trabalho interministerial para discutir a valorização energética de resíduos, um tema que será debatido na próxima reunião extraordinária do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), agendada para 2 de setembro.

Essa articulação governamental visa a superar os desafios regulatórios, econômicos e institucionais que atualmente limitam o uso de resíduos como uma fonte viável de energia. A proposta surge de uma demanda da Associação Brasileira de Energia de Resíduos (Abren), que, em ofício direcionado à secretária nacional de Transição Energética e Planejamento, Mariana Espécie, sublinhou a urgência de uma abordagem coordenada.

A complexidade regulatória e a visão de futuro

A fragmentação das normativas é o principal entrave para o desenvolvimento do setor. Atualmente, a recuperação energética de resíduos opera sob múltiplas políticas, como a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), o Novo Marco Legal do Saneamento Básico, as políticas energéticas e climáticas, além do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE). Essa sobreposição regulatória dificulta o licenciamento, a contratação de energia e o acesso a financiamentos para novos projetos.

O presidente executivo da Abren, Yuri Schmitke, ressaltou a importância de uma coordenação centralizada.

Essa transversalidade é, hoje, o principal entrave à implantação dos projetos: cada órgão detém parcela da competência necessária, mas não existe instância única de coordenação capaz de destravar, de forma articulada e simultânea, a regulação, o licenciamento, a contratação da energia e o financiamento.

Oportunidades e o caminho para a descarbonização

A iniciativa também se alinha com compromissos internacionais do Brasil, como o Compromisso Global do Metano e as metas da Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC), apresentada em novembro de 2024. O aproveitamento energético dos resíduos sólidos urbanos oferece um potencial significativo para a redução de emissões de gases de efeito estufa.

Durante um evento recente promovido pela Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema) em Brasília, representantes do MME e do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima sinalizaram a direção que os debates devem tomar. Entre os pontos-chave, destacam-se a harmonização dos marcos regulatórios, a identificação de rotas tecnológicas para o aproveitamento de resíduos e a integração entre as políticas energética e climática, com foco em programas de descarbonização.

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Karina Araújo, diretora do Departamento de Transição Energética do MME, enfatizou o papel do CNPE como uma plataforma de articulação. A diretora sublinhou que a oportunidade é de conectar o aproveitamento econômico dos resíduos com a política energética, convergindo com agendas de clima, inovação e desenvolvimento econômico. Ela também mencionou a importância de reconhecer os resíduos como recurso energético e avaliar a capacidade tecnológica do país para a produção de eletricidade, calor, vapor industrial, biogás, metano, biodiesel, diesel verde, combustível sustentável de aviação (SAF) e hidrogênio.

Adalberto Maluf, secretário nacional de Meio Ambiente Urbano, Recursos Hídricos e Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, reforçou a necessidade de maior coordenação. Ele defendeu que, embora existam marcos regulatórios sólidos, é preciso implementar os incentivos econômicos adequados para que as políticas saiam do papel. Maluf citou a importância de aproximar programas como o Mover, o Proconve, o RenovaBio e o Combustível do Futuro, que compartilham objetivos de adensamento da cadeia produtiva, descarbonização e promoção da economia circular. Os ministros João Capobianco (Meio Ambiente) e Márcio Elias (Indústria e Comércio) já teriam solicitado um plano para harmonizar e aperfeiçoar essas políticas.

Próximos passos e a agenda da Abren

A proposta da Abren para o grupo de trabalho do CNPE inclui oito atribuições essenciais. Entre elas, a entidade solicita a definição de um cronograma para a participação de resíduos sólidos urbanos (RSU) em leilões de energia e geração distribuída, além da sua inclusão nos estudos do Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE) e do Plano Nacional de Energia (PNE), em conformidade com o Planares.

A Abren também pleiteia a uniformização do tratamento regulatório dos RSU perante órgãos como a Aneel, ANP e ANA, buscando resolver conflitos normativos. Outro ponto crucial é a consolidação de uma metodologia para contabilizar as emissões de metano evitadas pelo desvio de resíduos de aterros, contribuindo para o inventário nacional de gases de efeito estufa e para a elegibilidade no SBCE. Finalmente, a associação propõe a estruturação de linhas de financiamento e instrumentos de garantia, via BNDES, CAIXA e fundos climáticos, adequados ao perfil de projetos de capital intensivo e longa maturação.

A criação deste grupo de trabalho representa um passo fundamental para o Brasil não apenas na resolução de um problema ambiental crônico, mas também na consolidação de sua matriz energética com fontes mais sustentáveis e na busca por uma economia circular efetiva. A expectativa é que as deliberações do CNPE impulsionem a integração de políticas, destravem investimentos e acelerem a transformação de resíduos em energias renováveis, reforçando o compromisso do país com um futuro mais verde.

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