As recentes restrições da China sobre as exportações de terras raras ameaçam paralisar US$ 6,5 trilhões da produção industrial global, impactando severamente setores vitais como veículos elétricos e energia eólica, segundo a IEA.
A China, líder mundial na produção e processamento de terras raras, tem intensificado suas restrições às exportações desses minerais críticos, gerando um alerta global. De acordo com a Agência Internacional de Energia (IEA), a aplicação integral dessas medidas poderia colocar em risco uma impressionante cifra de US$ 6,5 trilhões anuais na produção industrial fora das fronteiras chinesas. Este cenário eleva a preocupação com a vulnerabilidade das cadeias de suprimentos globais e a necessidade urgente de diversificação.
O impacto potencial se estende por setores fundamentais da economia moderna, desde a indústria automotiva, que depende desses materiais para veículos elétricos, até o segmento de energia limpa, com as turbinas eólicas. Além disso, a eletrônica, o setor aeroespacial, a defesa e os centros de dados também estão na linha de frente dos riscos, destacando a interconectividade e a dependência global desses recursos essenciais para a tecnologia verde e avançada.
Ameaça Global e Setores Chave
Os dados alarmantes foram revelados no relatório anual “Global Critical Minerals Outlook 2026” da IEA, divulgado na última quinta-feira (16). O estudo não apenas avalia a oferta e demanda, mas também os investimentos e os riscos geopolíticos associados aos minerais críticos. A estimativa de US$ 6,5 trilhões considera o valor total das cadeias produtivas que utilizam os minerais críticos e seus componentes, e não apenas o mercado direto das terras raras.
“A implementação integral dessas medidas poderia colocar em risco cerca de US$ 6,5 trilhões por ano em produção industrial fora da China, nos setores automotivo, de alta tecnologia, defesa e energia”, afirma o relatório da IEA.
Para a IEA, o ano de 2025 marcou um ponto de virada, transformando os riscos teóricos da concentração das cadeias minerais em efeitos econômicos tangíveis e de larga escala. As restrições chinesas foram implementadas em duas fases: a primeira, em abril de 2025, com controles sobre sete elementos de terras raras pesadas, já dificultou o acesso de empresas estrangeiras e causou interrupções na produção automotiva. A segunda rodada, em outubro do mesmo ano, estendeu as medidas para produtos fabricados no exterior que contivessem terras raras chinesas ou tecnologias originárias do país, embora sua implementação tenha sido suspensa até novembro de 2026. A vulnerabilidade, contudo, permanece alta.
O Domínio Chinês e Seus Riscos
A maior parte do impacto potencial dessas restrições recairia sobre as economias avançadas, com destaque para os Estados Unidos, a Europa, o Japão e a Coreia do Sul. Em termos setoriais, a indústria automotiva é a mais exposta, seguida de perto pela eletrônica, defesa e servidores de data centers. As terras raras são insubstituíveis na fabricação de ímãs permanentes de alta potência, componentes essenciais em motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, robôs industriais, equipamentos militares e máquinas para a produção de semicondutores.
Embora o nome “terras raras” possa sugerir escassez, o verdadeiro desafio reside na concentração extrema da mineração, separação química e fabricação de ímãs em um número limitado de países, com a China dominando amplamente. Em 2025, a China controlava aproximadamente 60% da mineração global de terras raras utilizadas em ímãs e impressionantes 85% do refino, mesmo após uma ligeira redução. Esse domínio, segundo a IEA, confere a Pequim uma ferramenta poderosa para influenciar as cadeias industriais mundiais.
Além das Terras Raras: Uma Estratégia Abrangente
O movimento da China não se restringe apenas às terras raras. Desde 2023, o número de códigos tarifários de minerais críticos sujeitos a controles de exportação pelo país triplicou. Em outubro de 2025, Pequim anunciou medidas estratégicas sobre a cadeia de baterias, incluindo materiais catódicos, precursores, grafite para ânodos, máquinas e tecnologias de fabricação. Uma interrupção total no comércio de grafite de grau-bateria, por exemplo, poderia comprometer mais de US$ 300 bilhões em produção anual fora da China.
Outras nações produtoras também têm adotado medidas restritivas, como a República Democrática do Congo com cotas para o cobalto e o Zimbábue e Moçambique com ações sobre o comércio de lítio e grafite. Estes episódios ressaltam como mercados de minerais relativamente pequenos podem sustentar atividades econômicas de valor muito maior. A ausência de um único ímã de terra rara, embora represente uma fração mínima do custo final de um automóvel, pode inviabilizar completamente a produção do veículo.
O ‘Prêmio de Segurança Mineral’ e Novos Investimentos
Diante desse cenário, a IEA defende que governos, empresas e consumidores aceitem pagar um “prêmio de segurança mineral”. Esse custo adicional financiaria cadeias de suprimentos mais diversificadas, mesmo que a produção fora dos fornecedores dominantes seja inicialmente mais cara. A agência argumenta que apenas as forças de mercado são insuficientes para criar alternativas robustas. São necessários instrumentos como empréstimos subsidiados, garantias públicas, participação acionária governamental, contratos de compra e mecanismos que cubram parte da diferença de custo.
Os compromissos de financiamento público em economias avançadas alcançaram cerca de US$ 65 bilhões em 2025, um aumento de mais de quatro vezes em relação a 2023. Isso demonstra um papel mais ativo dos governos na redução dos riscos de projetos e na mobilização de capital privado, buscando maior resiliência na cadeia de suprimentos de minerais críticos para a transição energética e a sustentabilidade.
O Papel Crescente do Brasil em Terras Raras
O Brasil surge como um protagonista promissor no relatório da IEA, entre os países capazes de expandir a mineração de terras raras fora da China nos próximos anos. Em um cenário otimista da agência, a produção mundial desses minerais críticos, excluindo a China, poderia quase triplicar até 2035. Este crescimento seria impulsionado principalmente pela Austrália e pelos Estados Unidos, com significativas contribuições adicionais do Brasil, Índia, Tanzânia, Laos e outros produtores menores.
Se todos os projetos anunciados forem concretizados dentro do prazo, a participação chinesa na mineração de terras raras magnéticas (neodímio, praseodímio, disprósio e térbio) poderia diminuir de aproximadamente 60% em 2025 para 45% em 2035. Seria a primeira vez em décadas que a China ficaria abaixo da metade da produção global desses elementos. No entanto, o avanço no refino seria mais lento, com a China ainda respondendo por cerca de 70% do processamento mundial em 2035.
O Brasil, especificamente, está “na vanguarda” do desenvolvimento de projetos em depósitos de argilas de adsorção iônica. Nesses depósitos, os elementos de terras raras são recuperados por processos químicos mais simples do que a mineração de rocha dura, embora ainda apresentem desafios tecnológicos e ambientais. A ascensão do Brasil e de outras nações é crucial para a diversificação das cadeias de suprimentos e para garantir a segurança e a sustentabilidade da transição energética global, reduzindo a dependência excessiva de um único fornecedor para minerais críticos.























