A China está construindo mais capacidade de energia renovável do que o resto do mundo junto, podendo alcançar suas metas para 2030 cinco anos antes. No entanto, gargalos na infraestrutura ameaçam prolongar a dependência do carvão.
A China, líder global em investimentos em energia limpa, está em um ritmo acelerado na construção de usinas eólicas e solares. Com mais de 500 GW em construção – superando a soma de todos os outros países –, o gigante asiático projeta atingir suas ambiciosas metas de energia renovável para 2030, cinco anos antes do previsto, conforme revelado por um recente relatório do Global Energy Monitor (GEM).
No entanto, essa expansão impressionante, embora um passo crucial para a descarbonização global, esbarra em desafios estruturais significativos. Gargalos na infraestrutura de transmissão e a complexa relação com o consumo local de energia levantam preocupações de que a dependência do carvão no país possa ser prolongada, desafiando a transição para um futuro verdadeiramente sustentável.
A Corrida da China por Energias Renováveis
Com um impressionante total de 1.362 GW em projetos de energia eólica e solar em diversas fases de desenvolvimento – sendo 664 GW de solar e 698 GW de eólica –, a China demonstra uma capacidade de expansão sem precedentes. O relatório do Global Energy Monitor (GEM) destaca que, mantendo o ritmo atual, o país poderá cumprir a meta do seu Plano Quinquenal ainda neste ano. Isso significa que a energia eólica e solar juntas representarão mais da metade da capacidade instalada total projetada para 2030, um avanço notável na busca por fontes sustentáveis de energia.
Desafios na Transmissão e o Fenômeno do Curtailment
Essa vasta expansão de energias renováveis está predominantemente concentrada nas regiões desérticas do norte e noroeste da China, onde Pequim implementa seu ambicioso programa de “megabases” de energia limpa. Contudo, o rápido crescimento da geração não é acompanhado pela infraestrutura de transmissão necessária. O relatório do GEM alerta para o risco crescente de “curtailment” – o desperdício de energia renovável gerada que não pode ser injetada na rede por limitações. Em províncias como Xinjiang, Qinghai e Gansu, entre 10% e 17% da geração solar e 4% a 9% da energia eólica são perdidas, evidenciando a urgência de modernizar e expandir a rede elétrica.
Além do problema do desperdício, a expansão da infraestrutura de transmissão de energia na China mantém uma conexão preocupante com o carvão. Embora as megabases de energias renováveis demandem 27 novas linhas de ultra-alta tensão, o próximo Plano Quinquenal prevê a construção de apenas dez. Atualmente, apenas cerca de 20% da eletricidade transportada por essas linhas provém de fontes eólica e solar, enquanto o carvão ainda é responsável por alarmantes 42% do total. Essa disparidade sublinha o desafio de desvincular o desenvolvimento da infraestrutura energética do uso de combustíveis fósseis.
Inovação e o Papel do Hidrogênio Verde
Em resposta a esses gargalos, a China tem implementado estratégias inovadoras, incentivando o consumo local de energia renovável e redefinindo polos industriais. Há um investimento crescente em sistemas de armazenamento, como baterias, e na produção de hidrogênio verde a partir do excedente energético. O país já direciona mais de 10 GW de sua capacidade renovável para a produção de hidrogênio – um volume quase oito vezes maior que o restante do mundo. Além disso, reguladores têm condicionado a aprovação de novos projetos de indústrias pesadas e de alta emissão à integração de fontes renováveis, buscando um modelo de desenvolvimento mais sustentável.
Apesar desses avanços, a pesquisa do GEM aponta para uma preocupante brecha: o risco de “lock-in do carvão“, ou seja, a perpetuação da dependência do combustível fóssil. Um exemplo citado é o caso da Baofeng Energy, uma das maiores produtoras de olefinas a partir do carvão. Em 2025, a empresa na Mongólia Interior inaugurou um projeto que combina um parque eólico e solar de 1.000 MW com a produção de hidrogênio verde para sua planta industrial. Embora a iniciativa reduza o consumo de carvão em cerca de 210 mil toneladas anuais, essa economia representa apenas 2,2% do consumo total da instalação, ilustrando a dificuldade de uma verdadeira descarbonização.
O cenário da Baofeng Energy ressalta o perigo de que a inclusão de energias renováveis se torne meramente um custo de conformidade regulatória, sem promover uma mudança substancial na dependência estrutural do carvão. Para que a China realmente consolide sua liderança climática, é fundamental que a transição energética vá além das métricas de instalação e se traduza em uma efetiva substituição dos combustíveis fósseis.
O objetivo das megabases é claro: acelerar a descarbonização em todo o país. Mas o próximo Plano Quinquenal ainda oferece muito espaço para que a China fortaleça sua liderança climática. No fim, o sucesso dessas megabases não será medido pelos gigawatts instalados, mas pelo volume de carvão que conseguirem efetivamente substituir.
Aiqun Yu, analista de pesquisa e estrategista sênior para o Leste Asiático do Global Energy Monitor, pontua.
A China, com sua inigualável capacidade de construção de energias renováveis, está em uma posição crucial para redefinir o futuro energético global. Contudo, os desafios de infraestrutura e a persistente dependência do carvão apontam para a necessidade de estratégias mais robustas e integradas que garantam uma transição energética genuína e não apenas uma adição de capacidade renovável.
Para que o país consolide sua liderança climática e promova um modelo verdadeiramente sustentável, será essencial superar os gargalos de transmissão e implementar políticas que assegurem a real substituição dos combustíveis fósseis. O futuro da energia limpa e da sustentabilidade global dependerá significativamente da capacidade da China em converter seu impressionante volume de instalações renováveis em uma redução substancial e duradoura do uso do carvão.
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