O Brasil tem potencial para gerar biometano equivalente a 70% do diesel consumido, mas a expansão da energia limpa exige planejamento para não comprometer a economia circular e o desenvolvimento sustentável.
O vasto potencial do Brasil em energias renováveis se estende à geração de biometano, um combustível limpo derivado de resíduos orgânicos. Apenas o material orgânico que o país descarta diariamente, incluindo esgoto, dejetos agropecuários e sobras industriais, poderia suprir cerca de 70% da demanda nacional de diesel. Contudo, o aproveitamento atual é irrisório, mal ultrapassando os 6% do potencial produtivo, segundo dados do Cibiogás.
Essa discrepância levanta um debate crucial para a transição energética brasileira: a produção em larga escala de biometano nem sempre se traduz automaticamente em progresso socioeconômico ou em maximização dos benefícios ambientais. A dúvida central é se essa nova fronteira energética representa um avanço genuíno para a economia circular ou uma potencial armadilha.
Do Resíduo à Energia: O Ciclo do Biometano
O biogás, precursor do biometano, é obtido através da decomposição controlada de matéria orgânica. Após um processo de purificação, ele se transforma em biometano, um gás com características muito semelhantes ao gás natural, permitindo seu uso na infraestrutura existente e em equipamentos convencionais.
Seu papel é particularmente importante em setores onde a eletrificação ainda é um desafio, como no transporte de cargas pesadas e em certas atividades industriais. Além disso, a produção de biometano oferece um ganho ambiental significativo. A decomposição descontrolada de resíduos orgânicos libera metano, um gás de efeito estufa com um impacto muito superior ao do dióxido de carbono em curto prazo. Capturar esse metano e transformá-lo em energia é uma estratégia eficaz de mitigação climática.
“O biometano não terá o mesmo papel em todos os contextos. Ele tende a ser mais relevante onde há geração contínua de resíduos inevitáveis, alta demanda energética e poucas alternativas de descarbonização.”
O Equilíbrio entre Energia e Economia Circular
A eficácia do biometano está intrinsecamente ligada ao contexto em que é aplicado. Em locais com produção constante de resíduos, alta demanda energética e poucas opções de descarbonização, seu papel é mais proeminente. Em outras situações, ele pode atuar como um complemento ou uma solução de transição.
A captura de gás em aterros, por exemplo, é essencial para reduzir emissões de um problema já existente. No entanto, essa prática não deve servir de justificativa para a manutenção de modelos de descarte. O ideal é prevenir que resíduos orgânicos cheguem aos aterros.
Nas áreas urbanas, as políticas públicas devem priorizar a prevenção do desperdício, a separação de resíduos na origem e a reciclagem. Para a fração orgânica, a compostagem e a biodigestão podem ser ferramentas complementares. O biometano urbano só fortalece a economia circular quando integrado a essa lógica. Se sua viabilidade depender da continuidade do envio massivo de resíduos para aterros, ele pode acabar competindo com estratégias mais benéficas, como a redução na geração de lixo e a recuperação de nutrientes.
O Cenário Agrícola e a Necessidade de Critérios Claros
No setor agropecuário, os critérios para a produção de biometano também precisam ser rigorosos. A prioridade deve ser dada a dejetos animais, efluentes e resíduos inevitáveis da agroindústria. O cultivo dedicado de plantas para produção de energia não pode competir com a produção de alimentos, nem pressionar o uso do solo ou incentivar o desmatamento de áreas nativas.
O estado de São Paulo surge como um exemplo tanto da oportunidade quanto da necessidade de um planejamento estratégico. A Fiesp estima que centenas de novas plantas de biometano podem ser implementadas em breve, atendendo a uma parcela significativa do consumo de gás natural e diesel no estado.
Planejamento e Regulação: Pilares para o Sucesso
A concretização desse potencial depende de um planejamento detalhado, que defina, em cada território, os locais ideais para as plantas, os tipos de resíduos a serem utilizados e os consumidores do combustível. Isso visa evitar a reprodução de problemas associados ao uso do solo e à gestão de resíduos.
Os instrumentos regulatórios e os incentivos econômicos precisam ser aprimorados para considerar o desempenho climático de cada projeto. A redução de emissões deve ser verificada em toda a cadeia produtiva. Caso contrário, o risco é remunerar apenas o volume produzido, sem garantir uma diminuição real das emissões de gases de efeito estufa.
No contexto do Sul Global, onde a discussão sobre energia a partir de resíduos tem levado a projetos de recuperação energética e incineração, é fundamental que o biometano se posicione como uma rota complementar a um modelo verdadeiramente circular.
Quando bem planejado, o biometano pode oferecer múltiplos benefícios: saneamento básico, gestão de resíduos, mitigação de metano, produção de biofertilizantes, segurança energética e alimentar, além de geração de renda e desenvolvimento local. A chave é adaptar modelos a realidades marcadas por limitações institucionais e de infraestrutura. Em essência, o debate sobre o biometano reflete o modelo de desenvolvimento que o país deseja construir. O desafio reside em garantir que a descarbonização não perpetue lógicas lineares e exploratórias, que são a raiz da crise ambiental atual.






















