O uso de sistemas de armazenamento por baterias pode reduzir o desperdício de energia renovável no Brasil em até 50%, segundo projeções do ONS para o sistema elétrico nacional.
A matriz energética brasileira vive uma transformação acelerada, impulsionada pelo crescimento expressivo da geração solar. Esse cenário, embora positivo para a descarbonização, traz desafios operacionais complexos, como o chamado curtailment — o corte de energia limpa por falta de escoamento ou flexibilidade na rede. Para mitigar esse problema, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) aposta no armazenamento como peça-chave.
Segundo o diretor-geral do ONS, Márcio Rea, a integração de baterias ao sistema pode derrubar os índices de desperdício de energia em até 50%. A estimativa está diretamente vinculada ao sucesso do próximo leilão de reserva de capacidade, previsto para dezembro, que busca atrair investimentos para dar robustez ao abastecimento nacional.
O desafio da flexibilidade
A necessidade de maior flexibilidade ficou evidente na semana passada, quando a geração fotovoltaica atingiu 38% da matriz, superando a contribuição das hidrelétricas, que ficaram em 33%. Esse pico de oferta solar cria rampas de oscilação que exigem uma resposta rápida do sistema. Administrar essa transição entre o início da tarde e o horário de pico exige fontes de resposta imediata, como as baterias e usinas hidrelétricas reversíveis.
“A bateria vai ajudar muito. Até na questão do curtailment, se eu calculo entre 40% e 50%, deve melhorar, deve diminuir”
Debates sobre custos e precificação
Apesar do otimismo técnico, o modelo de custeio das baterias ainda gera desconforto no setor. Representantes de empresas de geração questionam se os custos devem ser compartilhados por geradores convencionais, como térmicas e hidrelétricas. O debate central gira em torno da justiça tarifária e da viabilidade econômica dos projetos, temas que devem ser refinados pelo Ministério de Minas e Energia (MME) e pela Aneel.
Outro ponto de atenção é a sinalização de preços. Especialistas apontam que o atual piso do Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) impede que o valor da energia reflita a realidade de excesso de oferta. Com a Consulta Pública 228/2026, o governo estuda alternativas para que o mercado lide melhor com os momentos de sobra, permitindo sinais econômicos mais precisos que incentivem a eficiência operacional.
O futuro do setor elétrico brasileiro dependerá de como o governo equilibrará a segurança do suprimento com a modernização das regras de mercado. Com o leilão de dezembro no horizonte, o setor aguarda um movimento que não apenas amplie a capacidade de potência, mas que transforme as baterias em um ativo estratégico para a estabilidade do sistema frente ao avanço das renováveis.
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