A Axia Energia se desliga da Abraceel por divergências sobre a definição dos parâmetros de formação de preços no setor elétrico, um debate central para o futuro da energia no Brasil.
A Axia Energia, antiga divisão da Eletrobras, anunciou sua desfiliação da Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia (Abraceel). A decisão, apurada por fontes do setor, reflete um desacordo significativo sobre a metodologia de precificação da energia no mercado de curto prazo, um tema de alta relevância para o segmento de energia limpa e sustentável e para a estabilidade do sistema elétrico nacional.
O ponto central da discórdia reside na definição dos parâmetros de aversão a risco utilizados nos modelos computacionais que estabelecem o preço da energia. Enquanto a Axia Energia defende a manutenção dos parâmetros atuais de Conditional Value at Risk (CVaR) em 15/40, a Abraceel argumenta pela adoção do par 15/30, visando uma possível redução de custos e de despacho térmico preventivo.
O Coração do Debate: Parâmetros CVaR e a Precificação
O CVaR, ou Conditional Value at Risk, é um instrumento crucial nos modelos de operação e precificação do setor elétrico. Ele serve para quantificar e incorporar a aversão a riscos associados a cenários hidrológicos mais desafiadores. Essencialmente, esses parâmetros determinam a importância atribuída a cenários futuros de custo mais elevado nas decisões de operação do sistema. Uma maior aversão ao risco pode levar a um maior despacho de termelétricas, como medida preventiva, e, em certas condições, a um aumento nos preços de curto prazo.
Os parâmetros 15/40 do CVaR estão em vigor desde janeiro de 2025, coincidindo com a implementação do modelo Newave Híbrido. A discussão para 2027 ainda está em aberto, com a decisão aguardada para a próxima reunião do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), após uma consulta externa que ocorreu entre fevereiro e abril.
Divergências e Posicionamentos
As discussões na consulta pública abordaram múltiplos aspectos, incluindo a segurança do suprimento energético, a adequação dos modelos à realidade operacional, o impacto nas tarifas, a volatilidade dos preços e a exposição dos agentes no mercado de curto prazo.
A Abraceel, por sua vez, apoia o parâmetro 15/30, justificando que existe margem para diminuir a aversão ao risco nos modelos atuais. Esse ajuste poderia potencialmente levar a uma diminuição nos preços e a uma menor necessidade de despacho térmico preventivo, beneficiando tanto os comercializadores quanto os consumidores de energia limpa e sustentável.
A Axia Energia, em contraste, sustenta que a preservação dos parâmetros vigentes é crucial, pois estes refletem de forma mais precisa as condições operacionais do sistema e a necessidade contínua de assegurar uma sinalização adequada para a segurança energética do país.
Tensão Crescente no Setor Elétrico
A saída da Axia Energia não é um incidente isolado. Em dezembro do ano passado, a Copel também deixou a Abraceel por motivos semelhantes, em um período de intensa discussão sobre o CVaR e seus efeitos nos modelos de precificação e na contabilização do mercado de curto prazo. Essa sequência de desfiliações sublinha a crescente tensão e as complexidades envolvidas na formação de preços.
A discussão surge em um contexto de questionamentos por parte de comercializadoras e consumidores sobre a volatilidade do Preço de Liquidação de Diferenças (PLD) e seus impactos em contratos e liquidações. Geradores, por outro lado, insistem que os modelos não devem ser alterados em resposta a flutuações conjunturais do mercado. Em teleconferência recente sobre os resultados do primeiro trimestre, Rodrigo Limp, vice-presidente de Regulação, Institucional e Mercado da Axia Energia, reiterou publicamente a defesa pela manutenção dos modelos de formação de preços. Ele afirmou que não há base técnica ou jurídica sólida para contestar os modelos atuais, e que os parâmetros vigentes são os mais aderentes à realidade do sistema elétrico.
A decisão do CMSE, esperada para 13 de maio, será crucial para o futuro da precificação energética no Brasil, moldando não apenas a atuação dos players do mercado, mas também as perspectivas para investimentos em energia renovável e a estabilidade de preços para consumidores e para a indústria que busca um caminho de mais sustentabilidade.




















