Um novo relatório do MapBiomas revela que o Cerrado perdeu 34% de sua cobertura nativa em quatro décadas, atingindo um ponto crítico onde uso humano e natureza quase se equilibram.
O Cerrado, considerado a caixa d’água do Brasil, atravessa sua transformação mais drástica desde o início do monitoramento por satélite. Entre 1985 e 2025, o bioma viu desaparecer 51,7 milhões de hectares de vegetação original, uma extensão de terra colossal que supera, em 1,5 vez, todo o território do estado de Goiás.
O cenário atual é de um empate técnico preocupante: em 2025, a vegetação nativa ocupava 49,6% da área total, enquanto a exploração humana — composta por agropecuária e expansão urbana — já alcançava 49,5%. Este equilíbrio precário acende um alerta vermelho para a segurança hídrica do país e para o regime de chuvas, que depende diretamente da preservação desse ecossistema.
O avanço das fronteiras agrícolas
A grande responsável por essa mudança na paisagem foi a expansão das atividades produtivas, que incorporaram 24,7 milhões de hectares ao campo nas últimas quatro décadas. Embora o desmatamento tenha se iniciado de forma mais intensa no centro-sul, o mapa da destruição mudou drasticamente de direção.
Atualmente, a região conhecida como Matopiba — que abrange partes do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — é o novo epicentro da pressão sobre o bioma. Embora concentre quase metade da vegetação ainda preservada no Cerrado, a região respondeu por 66% de todo o desmatamento registrado nos últimos cinco anos.
“A degradação acelerada do Cerrado não é apenas uma perda de biodiversidade, mas um risco direto à nossa infraestrutura de recursos hídricos e ao equilíbrio climático que sustenta a economia nacional.”
Energia limpa em expansão
Curiosamente, o levantamento da Coleção 11 trouxe um contraponto importante: a ocupação do solo por novas matrizes energéticas. O Cerrado tornou-se um hub estratégico para a transição energética brasileira, abrigando, em 2025, mais de um terço de todas as usinas fotovoltaicas instaladas em território nacional.
A expansão de parques de energia solar impõe agora um desafio adicional de planejamento territorial. Enquanto a transição para fontes limpas é essencial para o combate às mudanças climáticas, especialistas do IPAM defendem que essa instalação deve ser feita com rigor, garantindo que a infraestrutura renovável conviva harmoniosamente com a proteção dos remanescentes vegetais.
O futuro do Cerrado, portanto, depende da capacidade do governo e do setor privado de conciliar a produtividade agrícola com a preservação ambiental. Com o deslocamento das frentes de conversão para o norte e nordeste, a criação de zonas de proteção e o monitoramento rigoroso nestas áreas emergentes tornam-se, mais do que nunca, uma prioridade nacional.























