Decreto de hidrogênio frustra mercado ao manter incertezas após dois anos de espera

Decreto de hidrogênio frustra mercado ao manter incertezas após dois anos de espera
Decreto de hidrogênio frustra mercado ao manter incertezas após dois anos de espera - Foto: Reprodução / Freepik | Pixbay
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Após dois anos de espera, o novo decreto que regulamenta o mercado de hidrogênio no Brasil gera reações mistas no setor, que ainda aponta incertezas sobre regras e incentivos fiscais.

A tão aguardada regulamentação do marco legal do hidrogênio de baixa emissão de carbono, publicada dois anos após a aprovação das leis que estabeleceram a política, chegou sob olhares cautelosos. Embora o decreto seja visto pelo setor de energia como uma sinalização fundamental para destravar investimentos e encerrar o “limbo” regulatório, ele ainda deixa lacunas que preocupam desenvolvedores de projetos.

Agentes da indústria destacam que o texto final não trouxe as respostas detalhadas que o mercado esperava após meses de diálogos com o governo. Agora, a expectativa se volta para a atuação de órgãos como a ANP, o Inmetro e o Ministério da Fazenda, responsáveis por desdobrar as diretrizes gerais em normas técnicas e procedimentos operacionais claros.

Fernanda Delgado, presidente da Abihv (Associação Brasileira da Indústria do Hidrogênio Verde), afirmou:

O ótimo é inimigo do bom. Como o decreto demorou dois anos para sair, pensávamos que ele seria mais completo. O positivo é termos as bases para o funcionamento da indústria, mas, depois de dois anos, esperávamos mais detalhes com o que foi discutido com a indústria.

Entre o avanço e a cautela regulatória

A visão geral é de que, embora o decreto traga segurança jurídica ao dispensar autorizações para certos projetos de P&D, ele transfere para uma nova etapa a consolidação das regras de certificação e concessão de créditos fiscais do PHBC (Programa de Desenvolvimento do Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono).

Para o sócio da Veirano Advogados, Marcos Ludwig, a publicação deve ser interpretada como um marco inicial, e não final. Ele reforça que a recomendação a investidores é monitorar atentamente as regulamentações complementares que virão, especialmente no que tange aos processos competitivos e à exploração de hidrogênio natural.

Desafios no horizonte dos leilões e custos

A implementação dos créditos fiscais — que somam cerca de R$ 18 bilhões — permanece envolta em incertezas, especialmente com a proximidade do primeiro leilão, previsto para 2027. Investidores temem que o aumento do custo da energia elétrica, evidenciado em recentes certames de capacidade, reduza a eficácia desses incentivos para tornar o hidrogênio verde competitivo em relação ao hidrogênio cinza.

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Apesar dos gargalos, o decreto acertou ao priorizar aplicações industriais, como siderurgia e química, focando em setores onde a descarbonização é mais urgente. Ludmila Nascimento, CEO da Green Energy Park, vê com bons olhos a priorização de projetos integrados, como a produção de aço verde (HBI), embora destaque que o cronograma do Rehidro, com benefícios vinculados a contratações até o fim de 2026, possa ser um obstáculo para empreendimentos de grande escala, cujo tempo de maturação é significativamente superior.

O debate sobre conteúdo local

Outro ponto de atrito na regulação é a exigência de 15% de conteúdo nacional para eletrolisadores. Desenvolvedores de projetos temem que a medida encareça a implementação da infraestrutura, uma vez que a tecnologia global é dominada pela China.

Por outro lado, fabricantes nacionais como a Hytron celebram a medida como uma oportunidade de fortalecer a engenharia brasileira. Daniel Lopes, diretor da companhia, defende:

Precisamos aproveitar a transição energética e o hidrogênio para alavancar a engenharia nacional e a nossa cadeia de valor local.

O embate entre viabilidade econômica e proteção da indústria local promete ser o próximo grande capítulo na consolidação deste novo mercado no Brasil.

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