O plano de governo de Flávio Bolsonaro apresenta convergências estratégicas com a atual gestão em energia, enquanto o mercado reage com cautela à regulação do armazenamento de carbono.
A corrida eleitoral trouxe à tona uma inesperada intersecção entre visões políticas opostas no campo da política energética. O plano de governo apresentado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL/RJ) revela uma continuidade ambiciosa das diretrizes de sustentabilidade iniciadas sob a gestão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), chegando, em determinados pontos, a intensificar as promessas de expansão setorial já em curso no país.
Enquanto a campanha de Flávio aposta na ampliação da infraestrutura de gás natural e na produção doméstica de fertilizantes, há uma sinalização clara para consolidar o Brasil como um polo global de energias limpas. A meta de atrair investimentos bilionários em fontes renováveis — incluindo energia solar, eólica e o promissor hidrogênio verde — até 2030 é um dos pilares que aproximam, ao menos no papel, os dois espectros ideológicos.
Convergências e Rupturas Geopolíticas
Apesar de compartilharem agendas focadas em minerais críticos e no desenvolvimento de tecnologias para baterias e data centers, o distanciamento ocorre na diplomacia energética. Enquanto a gestão petista mantém uma postura própria em relação às cadeias de suprimentos globais, a proposta do senador pelo Rio de Janeiro prioriza uma cooperação estreita com os Estados Unidos, desenhando um caminho distinto para a exploração de recursos estratégicos e a transição tecnológica.
O Impasse no Decreto de Carbono
Paralelamente ao debate eleitoral, a publicação do decreto que regulamenta a captura e armazenamento de carbono (CCS) gerou um sinal de alerta entre os investidores. O ponto central da polêmica reside na responsabilidade sobre os reservatórios de CO2, que, segundo o texto atual, recai sobre as empresas por tempo indeterminado.
A avaliação, feita por especialistas como Isabela Morbach, da CCS Brasil, reforça que a atual redação pode comprometer o apetite pelo risco em projetos de grande escala. Ela afirmou:
A manutenção da responsabilidade por riscos e danos de forma perpétua sobre os operadores diverge frontalmente das práticas globais, que transferem esse passivo ao Estado após a comprovação de estabilidade técnica do reservatório geológico.
Ainda assim, o setor celebra a integração do marco com o SBCE (Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões), um mecanismo fundamental para dar viabilidade financeira à descarbonização industrial.
A eficácia dessas políticas, independentemente do desfecho das urnas, dependerá de como o governo federal equilibrará as exigências de segurança jurídica com a necessidade de escala. A transição energética brasileira entra em uma fase de maturação onde a clareza regulatória será o principal motor para que as metas de 2027 para o SAF e outras matrizes sustentáveis deixem de ser intenções e ganhem tração produtiva real.




















