Novas tarifas dos EUA sobre produtos brasileiros podem custar R$ 76 bilhões à economia, alertam especialistas.
Um novo capítulo nas relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos se desenha com a imposição de tarifas americanas sobre uma parcela significativa das exportações brasileiras. A medida, que já acende o alerta para a indústria exportadora, pode gerar um impacto de cerca de R$ 76 bilhões na economia nacional, conforme estimativas do IBEVAR-FIA Business School.
A preocupação central reside na capacidade de investimento e no crescimento setorial, que podem ser freados pela nova política comercial. O volume de exportações sob incidência tarifária é estimado em US$ 11 bilhões, um montante considerável que afeta diretamente a balança comercial.
Impacto Direto no PIB e Setores Vulneráveis
O estudo aponta que o efeito econômico dessas tarifas pode corresponder a uma retração de 0,5% a 0,6% do Produto Interno Bruto (PIB) projetado para 2026. Em um cenário onde o crescimento econômico já se projeta modesto, essa perda representa um freio considerável.
A indústria madeireira figura como a mais exposta, com 83% de suas vendas aos EUA incluídas na lista de produtos tarifados. Outros setores como minerais não metálicos (56,3%), produtos químicos (51,8%) e alimentos (38,1%) também sentem o aperto. A indústria calçadista, têxtil, moveleira e de máquinas completam o grupo de segmentos sob maior risco.
A Aeronáutica e a Embraer em Pauta
Um dos casos mais emblemáticos é o da indústria aeronáutica. A Embraer, por exemplo, pode encarar um custo adicional de cerca de R$ 50 milhões por aeronave negociada no mercado americano. O impacto acumulado até 2030 pode chegar a R$ 20 bilhões, um reflexo direto das novas tarifas.
Essa nova política tarifária não se restringe apenas à redução das exportações. Os efeitos se propagam por toda a cadeia produtiva, impactando fornecedores, arrecadação tributária e decisões de investimento no longo prazo.
Concentração Regional dos Efeitos
Geograficamente, o impacto não é homogêneo. O estado de São Paulo responde por aproximadamente US$ 3 bilhões das exportações afetadas, cerca de 41,6% do total. Em conjunto com Santa Catarina, os dois estados somam mais da metade dos efeitos econômicos da medida.
Contudo, Santa Catarina apresenta uma vulnerabilidade relativa maior, com 68% de suas exportações para os EUA sob nova tarifação. No Nordeste, o Ceará se destaca pela proporção, com 96,5% de suas exportações para o mercado americano oriundas da indústria, com especial atenção ao complexo industrial e portuário do Pecém.
Respostas e Incertezas Econômicas
Diante deste cenário, o governo federal ampliou o Plano Brasil Soberano, destinando R$ 55 bilhões em linhas de financiamento via BNDES. A demanda por esses recursos já atinge R$ 18,4 bilhões, o que levou o banco a solicitar R$ 7,25 bilhões adicionais ao Tesouro Nacional.
Embora os recursos sejam operados como crédito, os pesquisadores alertam para os efeitos indiretos na arrecadação tributária e no desempenho fiscal, em um momento de aumento de despesas públicas e déficit primário projetado.
A instabilidade geopolítica no Golfo Pérsico e o calendário eleitoral de 2026 são outros fatores que aumentam a volatilidade da economia brasileira. A combinação de menor dinamismo nas exportações, pressão sobre as contas públicas e incertezas internacionais pode impactar significativamente as decisões de investimento.
“O tarifaço não é apenas uma disputa comercial entre dois países. É um evento que atravessa geografia (concentrado em poucos estados), fiscal (mais crédito emergencial, menos arrecadação), monetário (Selic represada) e diplomático (o pior momento em dois séculos de relação) ao mesmo tempo, e cada uma dessas frentes já está em movimento, mensurável, e mais cara do que a manchete de hoje sugere.”
A nova política tarifária americana impõe um desafio adicional a uma economia que já busca o equilíbrio fiscal e o crescimento sustentável. A forma como a indústria exportadora brasileira irá se adaptar e a efetividade das políticas públicas de mitigação serão cruciais para o futuro da competitividade, do emprego e dos investimentos no país.























