Um novo estudo da consultoria Bain & Company aponta que líderes globais dos setores de energia e infraestrutura projetam uma transição energética mais lenta do que o previsto, mantendo a relevância dos combustíveis fósseis até 2035 ou além.
A percepção de que a descarbonização global será um processo de longo prazo ganhou força entre os tomadores de decisão corporativos. Segundo levantamento realizado entre o final de 2025 e o início de 2026 com mais de 800 executivos de diversos segmentos, a meta de emissões líquidas zero sofreu um adiamento significativo no horizonte estratégico das empresas, sendo agora projetada para 2070 ou períodos posteriores por quase metade dos consultados.
O levantamento revela um contraste acentuado entre diferentes mercados. Enquanto o setor de petróleo e gás europeu demonstra uma expectativa mais otimista, prevendo o pico da demanda por hidrocarbonetos antes de 2035, o cenário nos Estados Unidos é mais conservador, com grande parte da liderança local acreditando que o auge do consumo de petróleo só deve ocorrer a partir de 2050.
Desigualdade regional nos investimentos
O ritmo da transição também é marcado por discrepâncias na alocação de capital. As empresas sediadas na Europa lideram o compromisso financeiro, com mais de metade investindo pelo menos 20% de seus recursos em tecnologias voltadas para a sustentabilidade. Em contrapartida, nas demais regiões, incluindo a América do Norte, esse nível de investimento ainda é restrito a cerca de 25% das corporações.
No caso da América Latina, o potencial para projetos de energia limpa segue em evidência, mas a instabilidade regulatória surge como uma barreira importante para a atração de capital externo. Para Diego García, sócio da Bain & Company, a competitividade dos países sul-americanos não depende apenas da abundância de recursos naturais.
“Isso significa que países como o Chile não competem mais apenas por recursos naturais, mas também por sua capacidade de oferecer segurança, marcos regulatórios consistentes e modelos de financiamento que permitam a viabilidade de projetos em um ambiente global mais seletivo.”
Desafios da Inteligência Artificial
Além da agenda energética, o estudo abordou a implementação da Inteligência Artificial (IA) nas operações corporativas. A maioria dos executivos relata que os projetos na área ainda estão restritos a fases de teste ou pilotos, com resultados operacionais ainda abaixo das expectativas. A falta de clareza sobre o retorno financeiro direto das ferramentas de IA é apontada como o principal obstáculo para uma adoção mais abrangente.
Essa digitalização crescente traz um efeito colateral direto para o setor de energia: a sobrecarga da demanda elétrica em data centers. Para mitigar esse impacto, 63% dos líderes apontam o armazenamento de energia como a prioridade técnica para garantir o suporte ao crescimento tecnológico, acompanhado pela urgência de modernizar as redes de transmissão e distribuição.
A tendência sinalizada pelo relatório sugere um movimento de transição pragmático e adaptável, onde a tecnologia e a viabilidade econômica ditarão, acima de cronogramas ideais, a velocidade da mudança na matriz energética mundial.






















